domingo, 8 de janeiro de 2012

Água boa era a de poço

Filtro Fiel
Fonte da Empresa Circular de Marília

Fonte da Coopemar

Sr. Antonio, cavador de poços

O costume de beber água de poço ainda leva as pessoas a procurar as fontes


No desbravamento do sertão paulista, os primeiros a tomarem contato com as novas terras foram os exploradores, contratados pelo governo, que promoviam as entradas e faziam os relatórios, baseando-se na hidrografia dos rios para sinalizar os limites e estabelecer os marcos.
Depois das glebas de terras devidamente demarcadas, os comerciantes de terra eram convidados a conhecer a região e dar início à comercialização. Foi assim que, no ano de 1919, surgiu o patrimônio do Alto Cafezal, hoje nossa querida Marília, do trabalho árduo dos pioneiros Antonio Pereira de Souza e José Pereira da Silva, após várias expedições feitas pelos desbravadores, utilizando as vias do Rio Feio e do Rio do Peixe como principais referências.
Adquirido o lote, a próxima preocupação para o comprador era conseguir água de boa qualidade para beber e para as atividades rotineiras das casas. Naquele período, a febre tifóide fazia muitas vítimas. Os rios, com águas escuras e barrentas, eram hospedeiros dos transmissores do malefício e a preocupação com uma fonte de água potável era prioritária.
De posse de um instrumento rústico, mas muito funcional, o furador de poço saía andando pelo terreno e aplicava sua técnica cabocla para encontrar o veio da água. Segurando as extremidades do galho, que tinha a forma de uma forquilha com a ponta mais comprida (forma de Y), de comprimento aproximado entre 40 cm a 50 cm, caminhava pelo terreno apontando o vértice para frente do corpo e para o solo.
Esta técnica utiliza a colaboração da radiestesia para encontrar os grandes veios de água. Em linhas básicas, podemos dizer que um veio subterrâneo de água corrente ou um grande lençol freático emanam energia, que pode ser captada de várias formas. A varinha de amoreira, segurada de forma sutil, quando passava pela superfície ideal para furar o poço, tinha sua ponta atraída para baixo, da mesma forma que um ímã atrai os metais. Isto acontecia em vários pontos da propriedade e, após o mapeamento dos locais e uma avaliação das condições ideais, que levavam também em conta a proximidade do poço com a futura residência, a localização do curral dos animais, as condições do terreno e outros fatores, dava-se início à perfuração.
Estabelecido o centro do poço, com um compasso improvisado com dois pedaços de galho e barbante, marcava-se no solo a circunferência, que tinha em média 1,40 m de diâmetro, o que viria a ser a “boca do poço”. Após atingir a marca de 1,50 m de profundidade, a boca era revestida rusticamente com pedras nas laterais, para garantir que não haveria desmoronamento. Depois, ia se aprofundando, passando pelo saibro, até chegar na pedra, a parte mais difícil da empreitada, pois demandava trabalho duro de ponteiro e marreta para atingir o veio ou o ponto ideal da mina.
Vencidas as dificuldades, a água surgia. Podia ser minando das laterais do barranco profundo, ou brotando em borbulhões do leito rochoso, fato que era sempre comemorado com muita alegria: “água que vem da pedra é água da boa”, diziam os antigos.
Depois, na casa de banho se instalava o chuveiro. Era um balde de latão, com capacidade para 10 litros em média, onde no fundo se adaptava um chuveiro com torneira. Quando dava por volta das três da tarde, a dona da casa punha a água no fogão de lenha para esquentar. A água que era transportada e despejada no balde, que depois era suspenso por uma corda para ficar na altura da cabeça. Ter este equipamento em casa era artigo de luxo, pois, no geral, os banhos eram de canequinha e bacia, isto quando não se aproveitava a mesma água para dar banho em duas ou mais crianças.
Depois que a cidade nasceu, a prática de furar o poço continuou e, com ela, surgiram muitas doenças que custaram a ser descobertas. Geralmente, na frente do terreno se fazia o poço e, nos fundos, as fossas e as conhecidas privadas de buraco. A fossa funciona por sistema de decantação e, por consequência, acabava contaminando o poço ou o lençol freático de uma região inteira. Quanto mais fossas havia em um local de concentração de pessoas e famílias, maiores as chances de se espalharem doenças e epidemias.
Com a chegada do sistema de encanamento dos esgotos e do fornecimento de água tratada e encanada, nos bairros que contavam com estes serviços, os poços foram deixados de lado e as condições de vida melhoraram muito. Mas o costume de se manter as talhas na cozinha continuou por bom tempo. Eram grandes vasos de barro, nos quais se depositava a água tirada do poço para servir no cozimento dos alimentos e para matar a sede. Os filtros com velas vieram bem depois. As talhas eram instaladas estrategicamente no canto da estronca das casas de madeira, geralmente no local em que havia duas janelas e grande circulação de ar. O barro cozido com que eram produzidas, vermelhinho, chegava a transpirar e garantia uma água sempre geladinha e da melhor qualidade possível.
O certo é que quem já bebeu água de poço, tirada na hora, servida na caneca feita com lata reciclada de doce Cica, ou já bebeu água da talha, tomada em cumbuca feita de cabaça cortada ao meio, nunca vai se esquecer.

Publicado também no Jornal Diário de Marília, coluna Raízes, edição de 08.01.2012
Ivan Evangelista Jr. é membro da Comissão de Registros Históricos de Marília



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