Ele já foi estrela de campo de futebol e anunciado aos
gritos em meio a galera enlouquecida pelas dribladas e o quase gol que sempre teima em não acontecer. O
vendedor esperto consegue andar pelas arquibancadas pulando em meio aos
torcedores e encontrando espaços que só ele vê. Ele têm passe livre na galera e
anuncia seu produto com toda poesia; “Olha o torradinho pessoal, vai bem com a Skol e com o futebol”.
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Foto internet |
Também pode ser encontrado nas principais vias de acesso da
cidade de São Paulo onde os ambulantes carregam baldes com braseiro, e na parte
superior uma espécie de tampa mantém o torradinho mais querido do Brasil
quentinho. Bonito de ver a embalagem feita de papel em formato de cone,fica difícil
não arriscar abrir a janela do carro para compra um, dois ou até mesmo três
pacotinhos. Irresistível.
Ganhei do meu filho agrônomo amendoim recém colhido e foi por
isso que toda esta memória cultural brasileira veio à tona. Quase todos nós temos
alguma lembrança onde o amendoim marcou presença. Alguém aqui já deixou um
monte de casca sob a carteira escolar de madeira? Alguém aqui já tomou bronca
da professora por fazer barulho na aula quebrando a bage, bem escondidinho e
apertando os dedos e as pernas para abafar o som? – Claro que não e se aconteceu
algum dia foi por pura implicância dela.
Isso sem dizer das casquinhas que vamos juntando uma a uma
até que um vento ou um descuido qualquer faz espalhar tudo pela casa. Já tentou
juntar casquinha de amendoim? Cada uma que se tenta pegar parece que se
multiplica em mais mil delas e aquilo vai pros cantinhos. Depois quando a gente
anda descalço elas aparecem como mágica na sola dos pés.Fica tudo pintadinho de
vermelho.
Amendoim lembra roça, que lembra forno de lenha, que lembra chaminé
soltando fumaça, que lembra o torradinho, e que depois de chegar em casa despertou
na patroa vontade de fazer canjica com amendoim. E foi por conta do torradinho
de hoje que me despertou esta rápida lembrança afetiva.
Ainda na infância, meu tio Arlindo fazia paçoca caseira das
melhores. Torrava, tirava e soprava as cascas, passava no moedor manual, fazia
aquela pasta oleosa e cheirosa, levava ao fogo com açúcar e mexia com a colher de pau até dar o ponto.
Depois despejava a massa cozida na pia de granito para
esfriar mais rápido ou ajeitava numa assadeira de alumínio e ia apertando para
ficar bem firme.Depois disso , riscava os quadradinhos e cortava os pedaços.
Não sem antes limpar a panela com os dedos e lamber a colher com aquele
restinho de doce grudado na ponta.
Tinha outra receita que ele fazia com freqüência. Panela no
fogo, açúcar Cristal para derreter com um pingo de limão. Dando aquele ponto de
grude ou puxa-puxa acrescentava uma xícara ou pouco mais do torradinho, grãos
inteiros, e mexia bastante par misturar bem. Dado o ponto jogava na pia ou
sobre pedra fria para cristalizar logo. Estava pronto o pé-de-moleque mais
gostoso que já comi na minha vida, e tenta comer escondido e sem fazer barulho.
Difícil hein!
Da roça até a nossa mesa é um caminho que merece aplausos
aos seus produtores. E bom dizer que a região de Marília responde por boa parte
da produção do estado de São Paulo.
Vai um torradinho aí?Ivan Evangelista Jr, fotografo, articulista, membro da Comissão de Registros Históricos de Marília e incentivador do Turismo Rural Brasileiro. #turismoruralmarilia