segunda-feira, 23 de março de 2026

A pioneira vocação agrícola de Marília

Dia destes me deparei com um senhor empurrando um carrinho de mão e vendendo verduras no mais antigo modelo de comércio que é o de porta em porta. Prepara o terreno, semeia, espera germinar, transporta as mudas para os canteiros, faz a capina, o controle de pragas, colhe, faz os maços, enche o carrinho, cobre com um tecido velho umedecido para amainar o efeito do sol, e toca sair pelas ruas oferecendo o fruto do seu árduo trabalho. As mãos geralmente são grossas, com ranhuras e ainda guardam restos da terra cultivada debaixo das unhas. Resiliente e resistente é daqueles que dorme pouco e acorda de madrugada para dar conta de toda essa agenda. É daqueles que reza, e muito, quando chove e faz frio dias seguidos e a demanda por verduras cai, assim como cai a sua precária renda com a qual tenteia as despesas da casa.
Foi quando me dei conta que esta é uma geração que está acabando devido ao trabalho sofrido e exigente, coisa que os descendentes familiares não querem mais para si nos dias atuais. Porém ainda temos oásis urbanos produtivos, de onde provavelmente sai parte do meu, do seu e do nosso consumo diário de hortaliças e legumes.
Pelo Google Earth dá para identificar áreas urbanas com hortas familiares. Já estão bem escassas e falta mão de obra. Interessante é que conversando com amigos do segmento eles dizem que produzir até que não é tão difícil assim, o difícil é a comercialização e a concorrência dos grandes supermercados. Os grandes se abastecem comprando no atacado do CEASA paulista, ou de outros centros de distribuição que consegue juntar: volume, qualidade e preço competitivo. O atacado é a solução para este modelo grande, e mais, geralmente não se perde nada porque o que não foi vendido, o que estragou na banca, o fornecedor tem que retirar, contar ou pesar e descontar do que tem a receber. No passado havia nas bancas plaquinhas com o pedido de “não aperte as frutas”, para evitar o este péssimo costume, ou o de se cutucar a fruta com a unha do polegar em vários pontos para saber se está no ponto, porém as que não passavam no teste ficavam na banca para o próximo cliente.
Na baixada da rua Palmares, quase no final da via, lado direito, ainda podemos encontrar um destes redutos produtivos. Seu Geraldo Melo, trabalhador e filho forte de pernambucano, faz valer o modelo antigo e ainda leva a produção para entregar pessoalmente na casa dos clientes e em alguns pequenos restaurantes. A propriedade não é dele, a amizade com os proprietários vem de anos. Faz valer o ditado “da horta para a sua mesa”. Trabalha solitário na horta, não tem carrinho de mão, leva as hortaliças em sacolas de feira.
No momento em que eu escrevia este arquivo seu Geraldo Melo bateu na porta da casa da Regina Perpétuo, minha companheira na Comissão dos Registros Históricos para entregar folhas de almeirão fresquinhas. Ele fala com alegria: “Quero ver se eu fico sempre trabalhando nessa profissão, estou desde 1980, porque é muito bom ficar atendendo as pessoas, plantando verdura, colhendo e vendendo aos fregueses.”
Em publicação no antigo Jornal Correio de Marília (1938), Laercio Barbalho, jornalista e político, escreveu artigo falando sobre esta vocação da cidade de Marília. Destaco um trecho interessante da sua percepção naquele tempo: "...O segredo do seu crescimento, pois, vamos encontrar num factor que tem escapado a todos quantos se propõem descobrir-lhe a origem. Para nós, elle reside, justamente nessa faina agrícola que agita a sua vida, e nesta distribuição quase que equitativa que existe da propriedade entre nós. porque olhando bem, o phenomeno dos latifundios e das grandes extensões territoriaes foi annullado aqui.”
Ivan Evangelista Jr, é membro da Comissão dos Registros Históricos de Marília, fotógrafo, e secretário do COMTUR Marília