segunda-feira, 14 de junho de 2010

Uma parte da história que se perde


Esta questão de preservação da memória é algo realmente difícil de se encontrar um meio termo. De um lado o desejo de manter viva a história da cidade, do outro, as necessidades que vão surgindo de se adequar espaços para uma nova realidade, ou muitas vezes pelo simples modernismo.
O assunto desperto aqui surgiu hoje, pela manhã, quando fiz a foto que compartilho com os amigos. De martelada em martelada, os tijolos pesados da construção anexa ao Educandário “Bento de Abreu Sampaio Vidal” (inaugurado em 17 de agosto de 1957) vão apagando parte da fachada deste belo prédio histórico.
Por uma coincidência tive a felicidade de passar pelo mesmo local em outro dia e fazer algumas fotos do referido prédio, que agora são o registro da memória. Enquanto focava os detalhes da obra fui pensando: será que este anexo era a rouparia do Educandário? Ou seria uma espécie de escritório?
Fiz uma pesquisa rápida sobre o tema e encontrei dois textos de referência, os quais recomendo a leitura – o primeiro no blog do José Arnaldo “De Antena e Binóculo” onde os amigos Sueli e Claudio Amaral resgatam as publicações do jornalista que escreveu por mais de 40 anos no Jornal Correio de Marília.
O segundo foi publicado em junho deste ano pela nossa companheira Rosalina Tanuri, da Comissão de Registros Históricos de Marília, no Jornal Diário de Marília em sua coluna semanal.
No mais, acompanho de vista as atividades que acontecem por lá e sei que continuam fazendo um bom trabalho com crianças e jovens carentes. Sei por exemplo que o local hoje conta com uma marcenaria (talvez escola de aprendizagem do ofício), tem também uma creche para a comunidade, com entrada pela rua 21 de abril, tem uma horta e, parte da área que serve de estacionamento para veículos, das pessoas que utilizam os serviços da Santa Casa e consultórios médicos vizinhos. É o desafio de se manter a vitalidade das instituições filantrópicas e buscar recursos

http://josearnaldodeantenaebinoculo.blogspot.com/2009/08/educandario-bento-de-abreu-17-de-agosto.html

http://www.diariodemarilia.com.br/Noticias/83509/O-Educandrio-Bento-de-Abreu

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Só o ciúme não tem remédio


Não resta mais dúvidas. A vocação da tradicional avenida Sampaio Vidal, em Marília, está mudando radicalmente. No passado, ela foi o grande corredor dos bancos, por onde mais de 17 agências se aglomeravam para disputar a atenção e o dinheiro do público passante e das empresas.
Lembro que cada inauguração de agência era sempre coroada de muita festa, com bateria de fogos de artifício, e os prédios ganhavam toques de requinte e distinção, tudo em nome do senhor cliente.
Aos poucos, os bancos descobriram que abrir pequenas agências nos bairros é bom negócio também. Um estudo apurado aponta a melhor localização do novo posto de atendimento, preferencialmente localizado estrategicamente perto de outros empreendimentos ou indústrias que concentrem bom movimento de pessoas.
Esta iniciativa tem vários prós: primeiro, o fator de estar mais próximo do público, lá no bairro, de forma que os aposentados, por exemplo, não precisem se locomover por grandes distâncias para a gestão de suas economias; conta também o fator comodidade, com mais áreas para estacionamento na vizinhança. Nos bairros, os aluguéis de imóveis tendem a ser mais em conta e os custos operacionais caem.
Foi assim que o Bradesco abriu uma série de pequenas agências (ou postos de serviços): na avenida República, no supermercado Tauste – loja norte e loja sul, no supermercado Kawakami e em outros pontos da cidade.
Instalar agências anexas ao conjunto de lojas de supermercados é outra estratégia excelente, em todos os sentidos, e ainda resgata aquele jeitinho mais caseiro do atendimento personalizado, coisa que brasileiro gosta muito.
Mas foi ontem a noite que eu me dei conta de que a Sampaio Vidal está ganhando um novo perfil. Passando pela esquina com a rua Maranhão, no prédio que já abrigou a agência do grande Bamerindus (o tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus continuava numa boa...), uma nova drogaria está para ser inaugurada – a Drogaria São Paulo, uma grande rede.
O investimento parece não ser pequeno. Gente trabalhando noite e dia, em ritmo acelerado, pintura nova, instalações de primeira e boa iluminação para destacar tudo que for exposto nas gôndolas e prateleiras. A cor branca dá o fundo básico para o colorido das embalagens.
O detalhe e a curiosidade do assunto estão na quantidade de estabelecimentos do mesmo gênero que disputam a artéria central da cidade. Contei 12 farmácias/drogarias instaladas em quatro quarteirões anexos, isto entre as ruas transversais Campos Sales e Cel. Galdino de Almeida.
Num raio imaginário de menos de quarenta metros, a nova drogaria tem na linha de frente mais três concorrentes.
E será que tem doente pra todo mundo? - Ah, deve ter, sim. Afinal, ninguém de bom senso sai por aí montando negócio sem avaliar e pesquisar antes.
Mas nós sabemos também que as farmácias e drogarias há muito deixaram de vender só remédios. Foi-se o tempo onde se comprava apenas o pó pa tapa taio na farmácia. A linha de produtos de beleza, os dietéticos ou emagrecedores atraem bom público, que investe muito na auto-estima e na preservação da natureza.
E vale registrar que muitos dos serviços que eram prestados nas farmácias, como medir a pressão arterial, fazer curativos e as chamadas pequenas consultas de balcão, estão restritos a hospitais e postos de saúde e, mesmo assim, o movimento nas lojas continua crescendo. Mas isso é assunto para uma próxima oportunidade.
Fica evidente que o segmento de mercado está em alta e a diversificação no mix de produtos, aliada ao bom e convincente atendimento (já notou que os balconistas se vestem de branco?) e ao design atrativo da loja, são fatores de diferenciação competitiva relevantes. O assunto é atrativo, vamos acompanhar os fatos.

Autor: Ivan Evangelista Jr, gerente de marketing
e comunicação do Univem e chefe de Gabinete da Reitoria

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Eles chegam sempre assim


Ao chegar para o expediente hoje minha atenção foi despertada pela beleza dos hibiscos da entrada principal. Estas flores reagem muito bem aos raios do sol, principalmente no período da manhã quando esbanjam cores.
Por vezes, da janela da sala, observo nossos alunos parando para um clic com as máquinas fotográficas ou celulares multifuncionais e depois compartilham estas imagens com amigos ou familiares.
Mas a melhor imagem do dia é esta que lhes envio.
O ônibus encostou na portaria principal e um burburinho alegre se misturou aos sons da natureza. Era a moçada da APAE, chegando para mais um dia de aula nos laboratórios da Fundação Eurípides – Univem, no programa de inclusão digital que vem apresentando excelentes resultados.
Risos, olhares, alegria contagiante e o prazer de mais um dia de aula. Assim começou nossa quarta-feira.

Ivan Evangelista Jr

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Uma venda de tudo


(Publicado na Folha de São Paulo, edição 20/05/2010)

Impulsivo nas compras? Não vá ao Lá da Venda. Não vá. Tudo o que você viu naquela cidadezinha de interior está lá
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CONHECI HELOÍSA Bacellar há um bom tempo. Fui à casa dela para um concurso de receitas de fim de ano, nos divertimos à grande na sua cozinha maravilhosa, cheia de todos os badulaques próprios ao métier de cozinheira, advogada, professora de culinária, escritora de livros de cozinha e artesã.
Um azougue, a criatura.
Um dia eu soube que abrira uma venda. Os muito moços, mocíssimos, não sabem o que é uma venda.
"Vai lá na venda, menina, e compra uma lata de óleo na caderneta!"
"Mãe, ganhei uma moeda, posso ir na venda comprar bala de goma e marcar na caderneta?"
Uma empregada levava meu irmão no carrinho e eu de mãos dadas para o parque Trianon. Na volta, passava na venda do seu Manuel e pedia cachaça.
Deixava cair no chão uns pingos para o santo, perguntava se eu queria experimentar e glupt, com um movimento rápido da cabeça para trás, entornava o copinho.
Entenderam o que é uma venda?
Um espaço onde se vende de secos e molhados a brinquedinhos para crianças, bonecas de pano, agulhas, dedais, picolés e pés de moleque. De tudo um pouco, conforme a cabeça do dono, geralmente português.
Na venda do seu Salvador, tinha saco de arroz, em que a gente enfiava a mão até o fundo e sentia um friozinho, bacalhau dependurado na porta e aquelas garrafinhas de chocolate embrulhadas em papel brilhante e colorido com licor dentro.
Pois, então, a Heloísa abriu sua própria venda. Restaurante-venda.
Cheguei lá com fome, ah, não é venda, nada, é estilizada, clara, luminosa, passei reto por um balcão de doces e salgados. Vi bolos e uns sonhos gordos e recheados de creme amarelinho.
O restaurante é o pequeno quintal da casa. Nos muros, dependuradas, latas de óleo, principalmente, com plantinhas caipiras.
Nunca se pode falar da comida se se vai ao lugar uma vez só, mas isso é regra para crítico de comida, que eu não sou. E, além disso, acho que vou comer lá todo dia, porque é comida caseira e gostosa e perto da minha casa. E, principalmente, é quente.
Num dia gelado, a comida estava quente, pelando, queimando a língua. Como não me acontece há muito tempo de queimar a língua com comida quente, fiquei encantada.
Pedi uma carne ensopada, macia, com um bom caldo grosso, que veio acompanhada de arroz, uma salada vistosa e umas tiras de batata-doce.
Finíssimas, fritas. Huuum, delícia.
Almocei bem, minha amiga comeu camarão com chuchu e teríamos mais umas três opções, mais ou menos, na mesma linha.
Mas todo o juízo que você exerceu na escolha do prato voa pela janela quando você volta pelo caminho da venda. Impulsivo nas compras? Não vá ao Lá da Venda. Não vá.
Tudo o que você viu naquela cidadezinha de interior onde passava as férias está lá. Tudo.
Comprei agulhas de fundo largo, xicarazinhas de café de ágata. Bule de café branco, caipira, frigideiras de ferro, bolas de gude, cumbucas, echarpe de pescoço, pó de arroz Lady, goiabada cascão de gavetinha, balas de coco com coco fresco.
Minha amiga saiu com uma cesta de piquenique de palha com dobradiças para abrir ora de um lado, ora de outro. Panos de prato, toalhas bordadas em ponto de haste e uma chaleira de desenho bonito.
Deixei por lá vasos de vidro, lindíssimos, bons para dar de casamento a quem entende-vidro pode ser tão bonito quanto cristal- e alguns livrinhos de cordel. E essência de baunilha orgânica e cheirosa, doces de pêssego em calda.
Pedi farinha e não tinha. (Confundi tudo, achei que estava no seu Salvador.) Mas a moça que me atendia foi delicada. "Ainda não temos", disse ela, frisando o "ainda".
Como se fosse uma grande ideia a se pensar...

ninahorta@uol.com.br

(leia abaixo minha resposta enviada para Nina Horta)
Foi mágico. Voltei no tempo num estalar de dedos assim que mentalizei o "enfiar a mão no saco de arroz e sentir o friozinho".
Quem não fez isso na infância perdeu uma das boas coisas da vida.
Mas ao fechar os olhos e voltar na venda do japonês, pois aqui no interior eram eles os proprietários na maioria, eu me lembrei do litro tampado com sabugo de milho que a mãe dava na mão e pedia para buscar um litro de óleo de cozinha. Quando lembrava de pegar o embornal, era mais fácil, não tinha risco de escapar da mão o gargalo lambuzado com o excesso. Quando acontecia eu custava a chegar em casa porque entrava no chinelo na certa.
Mas lembrei também da banha, comprada de quilo e embrulhada num papel diferente do de pão, sim , porque naquele tempo o pão era embrulhado e não ensacado ou ensacolado, como hoje. O cheiro da venda se confundia entre a caixa de bacalhau, que ficava aberta na porta, tomando sol, a lata grande aberta, de sardinhas salgadas que ficava sobre o balcão bem pertinho do caixa e o de sabão de soda, com os pedaços postos sobre uma tábua de madeira num canto qualquer.
Vez em quando, com sorte, um daqueles senhores que bebiam uma branquinha temperada (cachaça com carqueja) antes da janta, servia uma fatia de mortadela, muito cheirosa, que enchia a mão e corria goela abaixo como um manjar dos deuses. Quando isto acontecia, a semana tava ganha.
Pendurados em varais improvisados, de bambu, cabos de vassoura ou mesmo de barbante, vassouras caipiras ou de piaçava, grandes bonecas de plástico, com vestidos curtos e unhas pintadas de vermelho olhavam os transeuntes, os torradores de café, as bombas Fritz (flit) de passar veneno para matar pernilongos e os pacotes de biscoitos que davam dor no pescoço de tanto que a gente cobiçava olhando para cima.
Ah sim, tinha ainda um rolo de fumo, enorme, cortado na faca fina e afiada como gilete, embrulhado depois no papel rosa e posto no bolso de traz da calça. Comprei um punhado deles para o meu tio certa vez, fui cheirando o embrulho até em casa e, quando cheguei, fui direto para o quintal soltar as tripas pela boca tamanha era a fortidão.
A tia Nica misturava o fumo urina numa lata de marmelada vazia, deixava descansar por uns dias e depois ia para o vidro. O caldo grosso era usado como remédio para corte no pé, pisada em prego, para furúnculo ou ferida braba.

Nina, coisa boa, voltei na venda com você. Mas conta um dia sobre o toco do açougue também.

Ivan Evangelista Jr
Marília - SP

sexta-feira, 2 de abril de 2010

No pé de Cedro


Quem conhece Marília vai se lembrar que na Rua Paraná, abaixo da linha, bem em frente onde hoje está construída a Caixa Federal, havia uma porteira e um pé de Seringueira grande. A entrada em questão, leito de pedras de paralelepípedo, era acesso para o antigo pátio da FEPASA, hoje acesso ao estacionamento da loja Galpão Móveis.
Pois bem, era ali que meu amigo Toninho montava sua banca de ferro velho e passava o dia proseando com as pessoas que paravam para ver as velharias. Chaleiras de ferro fundido, panelas de ferro, coador, torrador de café de bola, enxada e machado "Duas Caras", martelo "Beloti", facão "Colins", balança de vara e bola, pé-de-ferro para sapateiros, correntes e cadeados de segunda mão, canivete sem cabo, tudo, mas tudo mesmo que você possa imaginar que talvez não tenha serventia, ali, sempre encontrava endereço novo e certo.
Foi com o Toninho que aprendi a gostar de "antiguidades", aqui em casa denominadas de velharias. Comecei com uma coleção de relógios de bolso (que guardo até hoje), depois passei para as garruchas, moedas antigas, rádios antigos (tenho vários deles ainda) e apetrechos em geral.
Um daqueles dias, passando pela banca do Toninho vi que ele estava vendendo duas mudas de Cedro. Pela amizade e simpatia ele me presenteou com uma delas; muda que plantei na entrada da chácara do meu sogro no distrito de Padre Nóbrega. Diz o velho ditado que onde tem pé de Cedro, raio não chega perto, então, carecia o plantio bem na porteira.
Cresceu árvore bonita, frondosa e na primavera se enche de flores que tem o cheiro bem parecido com a florada do café, cheiro doce que toma conta da redondeza. É uma formosura só de se vê !
Foi nos galhos firmes desta árvore que seu João-de-Barro fez sua primeira casa onde tirou filhotes mais a sua companheira. Depois, um pouco acima, fez outra morada e nova ninhada. Hoje esta segunda casa está alugada para alguns pequenos periquitos que acharam a coisa no jeito e resolveram procriar também.
Mas agora seu João resolveu fazer outra casa, talvez motivado pelo programa "Minha Casa, minha vida" do governo federal. O fato é que esta nova morada me chamou a atenção. Observe a foto, veja que as duas primeiras moradas tem a porta para o lado norte.
Aprendi que o pássaro faz a casa do lado contrário da chuva para evitar problemas com inundações e também fica protegido do vento mais forte. Tem tino para isso, nosso Deus dotou estes pássaros com um sistema de GPS que é fantástico de bom.
A terceira casa está com a porta voltada para o lado sul, notaram? Achei estranho e registrei a foto para perguntar ao amigo Valtinho, o Zootecnista e astrônomo, se é porque mudou a estação do ano ou o bicho errou mesmo.
Ele escreveu estes dias em sua coluna semanal no Jornal da Manhã contando que algumas colméias estão desorientadas pelas mudanças climáticas constantes. Será que a bússola do meu amigo João sofreu alterações também ?

Se puder nos ajudar Valtinho suas explicações serão bem-vindas.