No mapa turístico do estado de São Paulo a região que compreende as cidades de Garça, Gália, Marília, Lupércio, entre outras, é denominada de “Alto Cafezal – A história do estado entre um café e outro.” Na introdução do site oficial do governo do estado de São Paulo encontramos a seguinte descrição: ... A Região Turística do Alto Cafezal conta um pouco da história do desenvolvimento econômico do estado de São Paulo e do começo da modernização e industrialização do agronegócio brasileiro a partir do café – principal produto de exportação do País no século XIX e boa parte do XX. Apesar da chegada tardia de cafeicultores na região, foi lá que a produção se modernizou e encontrou terreno fértil para a automatização dos processos. Na região de Garça foi testada a primeira colhedora automática de café do mundo, em 1979, além de inovações importantes como o plantio de mudas em tubetes.O passado histórico cafeicultor ainda é presente e, além das grandes cooperativas que são referência no País, há forte presença de produtores independentes que apostam na torra dos próprios grãos e em lotes menores de alta qualidade. (https://www.turismo.sp.gov.br/conheca-a-regiao-turistica-alto-cafezal)
Como
presidente do Comtur – Conselho Municipal de Turismo de Marília, historiador e
pesquisador, sou membro de um grupo coordenado pela Fernanda Violante, secretária
adjunta da Secretaria Municipal de Trabalho e Turismo de Marília e interlocutora
regional da RT Alto Cafezal, que reúne voluntários e funcionários das
administrações e secretarias municipais das cidades integrantes da rota do
café. A missão deste grupo é promover a maior integração entre os municípios da
região turística, assim como, a troca de informações e experiências que possam
incrementar as atividades e dar maior corpo e exposição ao conjunto dos atrativos
turísticos.
O interior
paulista é rico em recursos naturais e tem na história da cafeicultura sua
maior contribuição para o desenvolvimento econômico do Brasil, principalmente
no período entre 1930 a 1970. Fazendas guardam construções, tulhas, secadores e
terreiros com seus trilhos, guardam equipamentos rústicos que serviram ao
trabalho duro do plantio, da colheita, da secagem, até o embarque na ferrovia
rumo ao Porto de Santos. Estes locais são templos históricos, memória viva de
um ciclo produtivo que foi denominado ciclo do ouro verde.
Com esta
visão estamos propondo aos municípios que promovam um levantamento geral das
propriedades que abrigam estas memórias e que sejam passíveis de visitação
dentro de um período médio e longo prazo. A cidade de Garça fez um trabalho
muito bom de pesquisa em que levantou e registrou dados de mais de 200 propriedades.
São sítios e fazendas que poderão integrar a rota do turismo rural, outro
segmento do turismo de lazer que proporciona aos visitantes a experiência de
contato com a natureza, contato com núcleos familiares produtivos e o
aprendizado de saberes da cultura caipira.
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Rui Bonini, agrônomo e produtor de café |
O gostoso de participar deste processo de autodescoberta, sim, porque a nossa identidade cultural passa pelas histórias do café, é resgatar histórias e personagens que são testemunhos de todo este movimento.
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Rui Bonini contemplando o terreirão |
Entrevistar e ouvir o Sr. Rui foi um momento de imersão na história e de resgate de memórias que precisam ser sempre compartilhadas para que mais pessoas conheçam sobre a cultura do café e seus personagens.
Gravei uma série de vídeos em que ele respondeu perguntas e nos contou detalhes sobre sua família e a saga com o café. Fomos recebidos na casa sede da fazenda, residência muito agradável que já teve 22 moradores, coisa bem típica de famílias de imigrantes, construção com pé direito perto dos quatro metros de altura, quartos com assoalho de madeira nobre, guarda roupa e móveis de época, outras dependências com piso cerâmico rústico e sala de visitas com quadros e fotos da árvore genealógica e documentos históricos.
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Registro da 1ª colheita na fazenda |
Ele nos
contou, por exemplo, que intermediou e participou dos primeiros testes da
colheita mecanizada e, com merecedor orgulho, nos disse que o seu maior legado
é ter sido um dos agentes no processo de modernização da cultura cafeeira,
desde a mudança para o plantio linear, a transição e a experiência de trabalhar
com 3 mudas por cova, para 2 mudas e depois para o modelo atual onde se planta
apenas uma muda, já com toda a tecnologia e vitalidade que a planta precisa
para em um período de três anos dar os primeiros frutos.
Um detalhe importante é que toda a plantação atual é toda irrigada, isto mesmo, os pés de café recebem a quantidade de água necessária, o que resolveu o problema da dependência das chuvas, por sinal, bastante escassas nestes últimos três anos. Toda a colheita é mecanizada e num curto período, com a colaboração de 23 pessoas, os grãos maduros são trazidos da roça para o terreiro, e depois para os secadores para o posterior ensacamento. Não passa de vinte e poucos dias este ciclo.
Se este
pequeno relato já nos dá uma pequena noção sobre a riqueza histórica e
cultural, imagine poder passar um dia na fazenda, visitar as instalações,
visitar a lavoura, beber do café in natura e ouvir o Sr. Rui Bonini e a
Sra. Leila, esposa e companheira, contando mais sobre as nossas raízes. É
justamente essa a essência do turismo rural.
Garça e
Marília já contam com o Conselho Municipal de Turismo e a cidade de Vera Cruz
está se preparando para formar a sua própria entidade e dar um passo muito
importante para integrar o mapa do turismo paulista.
E já que o assunto é café, anote aí: nos dias 21 e 22 de maio acontecerá a Festa Joias de Vera Cruz – Festival do Café. É a segunda edição do evento que reúne atividades de lazer, música, cultura e gastronomia regional. O desafio para este ano é que todas as barracas que vão comercializar alimentos devem fazer constar do cardápio pelo menos um prato que tenha o café como ingrediente. Podemos nos preparar porque a festa promete.
Não é de hoje que a região trabalha na valorização da nossa identidade cultural. Na 1ª edição do Festival Gastronômico de Marília (2013), o restaurante 515 criou um prato especial que foi denominado “Medalhão Matarazzo”. Referência as indústrias Matarazzo. A receita era composta por medalhão de filé bovino, regado ao molho de café, acompanhado de batatas rústicas ao alecrim, tomates cereja e arroz cremoso.
Ivan Evangelista Jr, é presidente do Conselho Municipal de
Turismo de Marília, membro da Comissão de Registros Históricos, pesquisador,
fotografo e historiador, autor do primeiro Guia de Roteiros Turísticos de
Marília.