domingo, 12 de outubro de 2014

Rua José Alfredo de Almeida


É gostoso visitar locais da cidade que ainda guardam a poesia da história, recantos especiais, por onde caminhamos. Parece que as reminiscências, guardadas na cortina do tempo, vão surgindo das sombras das árvores, das esquinas, dos jardins e dos portões, invadindo a nossa mente e gerando emoções muito saudáveis.
Um deles é o bosque municipal, rico em diversidade da flora característica da Mata Atlântica, o que torna os passeios por lá sempre mais agradáveis do que qualquer caminhada em pista urbana planejada. No bosque, a vida é verde... e, se for pela manhã, então, melhor ainda, vez que aos primeiros raios de sol a mata começa o processo da fotossíntese.
O leitor sabia que tem prefeitura no exterior que comprou um grande tronco de árvore, providenciou a sua devida instalação em uma espécie de estufa de vidro, criou um ecossistema controlado, com chuvas artificiais regradas e controle de incidência de raios solares, estimulou o crescimento de fungos e arbustos menores, e agora cobra ingresso das pessoas, que pagam para respirar, conversar, ouvir música e ter momentos de boa leitura dentro desta biodiversidade instalada no meio urbano? Pois é, meus amigos, aqui, a gente ainda tem tudo isso com acesso livre.
Cantina Mamma Mia
A Rua José Alfredo de Almeida, ilustre bisavô do atual prefeito, é outro recanto que merece a nossa visita com o olhar da sustentabilidade. Tradicional entrada da Fazenda Bonfim, ainda guarda parte da história num dos casarões da família Almeida, que desde 1990 abriga a Cantina Mamma Mia, restaurante típico italiano. No passado, depois do expediente noturno, entre uma taça de vinho e outra, tive a felicidade de compartilhar bons papos com o saudoso amigo Dô Cerqueira Cesar. Ele contava, feliz, passagens das brincadeiras de crianças no terreiro, da cozinha da família, sempre farta e generosa, casa cheia de amigos e visitantes, e do quarto no sótão, que ainda existe.
Depois, nos sentávamos numa mesinha bem aconchegante, pertinho do pé da escada, e ali saboreávamos um prato de Brodo, polvilhado com queijo parmesão ralado. Madonna mia! Boa comida e boas amizades sempre fizeram muito bem à alma.
Na visita à rua, não deixe de conhecer o majestoso pé de eucalipto, que tem placa de tombamento pela prefeitura, por motivo da localização e do porte, ganhando assim a condição permanente de preservação. Ao lado da grande árvore, está a entrada do condomínio “Quinta do Bonfim”. Foi ali que flagrei, no momento da visita, uma senhora bem idosa e muito simpática, e sua gentil acompanhante, saboreando jabuticabas de mão e boca cheias. Pensei: será que a senhora em questão é membro da família Almeida? Pareciam duas crianças.
Vi também que no jardim tem um pé de cuia (cuité), conhecida popularmente como cabaça. Depois de tratada, era transformada pelos índios e caboclos em utensílio de cozinha. Sobre a espécie, alguém já escreveu: “Apeou do cavalo, passou a mão na corda e puxou o balde do poço, de onde tirou e bebeu uma cuia de água fresca para matar a sede.”
Pé de Cuia
     
José Alfredo de Almeida (Zezé de Almeida) é filho do Coronel Galdino Alfredo de Almeida e Olívia Cândida de Almeida. Teve os filhos Gustavo Prudente, Fernando José, José Alfredo e Maria Carolina. Veio para Marília na década de 20, quando seu pai, e o amigo Cel. José da Silva Nogueira (José Braz), adquiriram a Fazenda Bonfim e o loteamento denominado Vila Barbosa, encarregando-se do serviço de venda de lotes.
Já na década de 30, juntamente com seu cunhado, o Dr. José da Cunha Júnior, fundou a Casa Bancária “Almeida & Cia.”, que alguns anos depois foi transformada em Banco Brasileiro de Descontos S/A, o Bradesco. Mudou-se para São Paulo e, no governo de Adhemar de Barros, assumiu a presidência da Vasp (Viação Aérea São Paulo). Fundou na capital a Aerovias Brasil, que depois foi incorporada à Vasp.
Passeio ao sol da manhã e jabuticabas
Com espírito empreendedor e visão futurista, era pessoa de assumir desafios e foi assim que, na década de 30, ocupou a Prefeitura Municipal de Marília, no impedimento do então prefeito João Neves Camargo (26 de fevereiro a 5 de maio de 1936), quando, segundo a história registrada, adquiriu o prédio de máquinas de café e arroz da firma Quilles & Cia, local onde foi construído o Ginásio Municipal, e, mais adiante no tempo, a instalação da Biblioteca “João Mesquita Valença” e a Secretaria da Cultura.
Zezé de Almeida muito cooperou para a vinda a Marília das Faculdades de Filosofia, de Medicina e, também das Faculdades da Fundação de Ensino Eurípides Soares da Rocha, quando vendeu à Prefeitura de Marília, por preço simbólico, os terrenos destinados à instalação das faculdades, hoje o Campus Universitário.
Entre os inúmeros cargos ocupados, foi diretor da Companhia Urano de Capitalização e Casa Comissária Souza Dantas Forbes; tesoureiro da benemérita campanha Pró Monumento Monteiro Lobato, diretor de Imóveis e Investimentos Almeida & Barros e presidente da Cia. São Paulo de Investimentos Gerais. Faleceu em Marília em 30 de janeiro de 1971.
Digo que, pela exuberância das árvores, o cuidado dos jardins e a tranquilidade que reina na via, merecia ter o nome Alameda José Alfredo de Almeida.

Ivan Evangelista Jr.
Membro da Comissão de Registros Históricos de Marília
Publicado no Jornal Diário de Marília, em 12/10/2014

Os inconfidentes em Marília, acaso ou causalidade?

Na produção destes artigos semanais, sigo algumas rotinas que ajudam a compor o resultado final. A rua que será o alvo da próxima publicação pode surgir por vários caminhos: sugestão de amigos mais próximos, sugestão dos leitores, encontros casuais ou a simples observação urbana, a paisagem, os prédios históricos, uma árvore ou jardim diferente... e a inspiração vem em seguida.
O passo seguinte é buscar os arquivos da Comissão de Registros Históricos e da Câmara Municipal de Marília, sempre contando com a colaboração e simpatia dos amigos Wilza Matos e Paulo Colombera. Levantamos leis e outros documentos arquivados, que sempre ajudam a produzir informações curiosas sobre a via, resgatando datas e personagens que participaram da história. Percebemos que, uma vez o fio da meada puxado, seguindo os rastros históricos, identificamos o autor da propositura, as justificativas da indicação, período e o nome do prefeito em cuja gestão aconteceu a indicação e mais alguns dados.
Quando o assunto é coletivo, como foi o caso das ruas que receberam nomes indígenas, chegamos aos mesmos personagens, porém, sempre fica uma pergunta: por que um determinado conjunto de ruas de um bairro recebeu do seu criador nomes que estão relacionados àquela temática? Exemplos práticos: o que inspirou o idealizador da Vila Jardim a colocar nomes de flores nas ruas? No bairro Aquarius, seria o lago o centro da inspiração para que as ruas tenham nomes de peixes? Sabemos também que foi o livro ‘Marília de Dirceu’, de Tomaz Antonio Gonzaga, que inspirou Bento de Abreu na escolha do nome da cidade.
Pois bem. Conjecturas à parte, num destes diálogos com a colega Wilza, ela me fez a sugestão para escrever sobre as ruas que têm nomes de personagens e poetas ligados ao episódio histórico da Inconfidência Mineira. São eles: Cláudio Manoel da Costa, Alvarenga Peixoto e Tomaz Antonio Gonzaga.  Estas ruas estão localizadas no bairro Cascata, e a curiosidade sobre o assunto não para por aí não. Tem ainda a Rua 21 de Abril, em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, enforcado nesta data, por envolvimento nos episódios de organização de ações com vistas à Independência do Brasil, sendo que esta via é transversal a todas as demais.
E aí o cenário se completa quando nos dirigimos no sentido bairro-centro. Depois de passar por todas elas, chegamos à Rua da Liberdade. Diga-me, leitor amigo, seria casualidade ou causalidade? É certo que a segunda opção é a mais correta; tudo foi muito bem pensado. Tem história por detrás da própria história, tem recados e pistas que podemos seguir, descobrindo nossa cidade com outros olhos e olhares.

Praça Tiradentes - Ouro Preto
Tive a alegria de conhecer as cidades históricas, visitei museus e centros culturais onde estes nomes surgem a todo momento e são literalmente reverenciados, visitei a cela onde Tiradentes passou seus últimos dias, assim como, na mesma oportunidade, ouvi pelas bandas mineiras a história de que foi um vizinho seu de cela, um personagem desconhecido, o enforcado e esquartejado no lugar de Tiradentes, enquanto ele teria sido levado para outro local, acobertado em carroça de lenha e capim. E completou o relator anônimo: “Coisa da maçonaria da época, que era muito influente e conseguiu mexer os pauzinhos para privar sua vida”.
Claudio Manoel da Costa foi advogado, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e amigo do Aleijadinho, a quem teria possibilitado o acesso às bibliotecas clandestinas na época dos fatos. Há quem afirme ter tido ligações com os illuminatti, sociedade secreta de cunho iluminista, que teria influenciado várias revoluções. Morreu em circunstâncias obscuras, em Vila Rica, em 4/07/1789. Oficialmente, teria cometido suicídio por enforcamento na prisão.
Inácio José de Alvarenga Peixoto, advogado, também adepto do iluminismo, assim que denunciado, preso e julgado, foi deportado para Angola, onde faleceu. Investiu boa parte de suas finanças para a abertura de um canal de cerca de 30 quilômetros para abranger as melhores minas de ouro do arraial, período em que se envolveu com dívidas e impostos não recolhidos.

Interior da casa de Gonzaga 
Tomaz Antonio Gonzaga, por sua vez, é personagem muito conhecido de todos nós marilienses e tem envolvimento direto na história da cidade. Visitei a edificação onde ele morou em Ouro Preto, pisei na mesma varanda de onde ele avistava sua musa inspiradora, lá na baixada, entre os casarões e vielas. Me senti literalmente em casa, degustei cada detalhe da história viva, sentei-me no mesmo jardim que tem a montanha aos fundos, local onde certamente a inspiração o consumiu para escrever seus poemas. Acusado de conspiração e preso em 1789, cumpriu pena de três anos na Fortaleza da Ilha das Cobras-RJ, tendo seus bens confiscados. Em 1792, sua pena foi comutada em degredo e, a pedido pessoal de Maria Isabel, o poeta foi enviado à costa oriental da África, para cumprir em Moçambique a pena de dez anos de exílio. No mesmo ano, foi lançada em Lisboa a primeira parte de “Marília de Dirceu”, com 33 liras. Novamente, a história busca a figura simbólica da maçonaria para justificar o lançamento da obra, uma vez que o autor estava em outro continente.
Caminhei novamente pelas ruas aqui mencionadas, agora não mais como simples transeunte, e sim como cidadão, ciente da grande contribuição destes ilustres personagens à liberdade da nação.
Fica a sugestão para as queridas professoras. Numa próxima aula sobre os inconfidentes, após os alunos tomarem posse do conhecimento histórico compartilhado em sala, que tal levá-los para caminhar por estas ruas e aproveitar o sol da manhã?

Ivan Evangelista Jr.
Membro da Comissão de Registros Históricos de Marília
Publicado no Jornal Diário de Marília, em 05/10/2014

A Rua 16 de Setembro

Venho notando que os nossos encontros dominicais estão sendo muito produtivos, tanto para o autor destas crônicas, como para os leitores amigos. É sempre bom mergulhar no tempo, conhecer-se melhor, saber das nossas raízes e das histórias que permeiam ruas e bairros da nossa querida cidade.
Já comentei em outra oportunidade que há pessoas que passam metade da vida, ou até mesmo a vida toda, morando em um determinado endereço, sem nunca se preocupar em saber mais sobre um dos seus principais referenciais de vida. Já perceberam que, na maioria dos nossos contatos, nos contratos, nas compras ou cadastros, o nome da rua em que moramos é sempre solicitado?
Ainda bem que as escolas estão trabalhando o tema com os alunos. Assim, a identidade de cidadania, do pertencer ao meio, vai crescendo na mesma proporção que a cidade. Contar a história para os jovens e as crianças é compartilhar valores, é  incutir o sentimento do respeito e da cidadania. Digo isso porque me entristece muito ver as pichações em patrimônios públicos ou nas fachadas do comércio e das residências.
 E, por solicitação de um amigo, lá fomos nós em busca das origens da Rua 16 de Setembro, localizada em frente ao Tiro de Guerra, no bairro Palmital, prolongamento. Mais uma vez, encontramos na história as mãos do  benfeitor Bento de Abreu Sampaio Vidal Filho. Segundo a Lei nº 915, de 6 dezembro de 1960, na gestão do prefeito Octávio Barreto Prado, por meio de doação pura e simples, Bento de Abreu e outros cederam área para o prolongamento do bairro, nos chamados subúrbios da cidade.
Um  parêntesis: "Originalmente, existiam os burgos, que eram as áreas dentro dos muros das cidades, as áreas fora dos muros passaram a ser conhecidas como subúrbios. Com o fim das cidades cercadas de muros, a área conhecida como subúrbio passou a ser a periferia dos centros urbanos”.
Na primeira edição, a Rua 16 de Setembro aparece com 14 metros de largura e 214,32 metros de extensão, a partir da Rua Pedro de Toledo, até 32 metros além do eixo da Rua Washington Luiz. Mais adiante na história, encontramos a Lei nº 1134, de 28 de abril de 1964, na gestão do prefeito Armando Biava, na qual a Rua 16 de Setembro é novamente mencionada. A partir desta data, a rua passou a ter 260 metros de extensão. É a cidade crescendo, abrindo espaços para mais casas e mais comércio.
E ela volta a ser alvo na Lei nº 4292, de 8 de julho de 1997, quando é espichada novamente até a Rua João Batista Rafael, na administração de Abelardo Camarinha.
Mas a pergunta ainda não foi respondida - por que Rua 16 de Setembro? Encontramos a resposta no livro “Marília - sua Terra, Sua Gente, de Paulo Corrêa de Lara.
A Comarca de Marília foi instalada em 16 de setembro de 1933, criada pelo Decreto nº 5.956, de 27 de junho de 1933, do então interventor federal General Waldomiro de Lima. O historiador nos conta que foi buscar esta informação em outro livro, que tem por título “Marília”, autoria do professor Glycério Póvoas.
Para entender melhor a importância da data histórica, voltamos aos tempos do patrimônio, do latim Patrimonium: “patri” (pai), e “monium” (recebido, herança). Ou seja, relendo a história, vemos pai e filho traçando as primeiras ruas, lá nos altos da igreja de Santo Antônio. Visto desta forma, o Patrimônio do Alto Cafezal é uma herança da atitude promissora de ocupação e comercialização das terras pelos fundadores Pereira e Pereirinha.
Mais adiante, quando o patrimônio já tem porte para se transformar em cidade, recebe de Bento de Abreu Sampaio Vidal o nome de Marília.
E a Comarca... porque é tão importante? Podemos dizer que Comarca é um status, uma condição que dá ao município o privilégio de ter juiz e promotor, sem a qual a cidade ficaria à mercê de outras instâncias. Governar é como um jogo de xadrez: vamos movimentando as peças no sentido de ocupar territórios, de crescer, de dotar a cidade de uma estrutura que favoreça o desenvolvimento em todas as instâncias.
Fazendo uma comparação, a Comarca estava para Marília, nos anos 30, assim como hoje está a ampliação do aeroporto “Frank Miloye Milenkovich”. Ou fazemos ou não temos logística de transporte de cargas e passageiros. E está acontecendo.
Resgato a história e volto ao período em que João Barion Jr., então diretor do CIESP, ergueu bandeira e liderou o movimento “Duplicação, Já”, exigindo a duplicação do trecho Marília - Bauru, da SP 294.
Lembro que somamos esforços com a Associação Comercial, Senac, Sesi e Sebrae, órgãos representantes de instituições da cidade ligadas ao setor empresarial, que formavam o GEAD - Grupo Empresarial de Apoio ao Desenvolvimento, e fizemos acontecer. Congestionamos a rodovia nas proximidades do trevo de Garça, levamos caminhões, muitos caminhões e, dentro da ordem, chamamos a atenção da imprensa nacional e do governo estadual.
De Comarca, aos dias atuais, fica clara a importância da união de todos em torno de objetivos comuns. Marília, cidade bela!

Ivan Evangelista Jr.
Membro da Comissão de Registros Históricos de Marília
Publicado no Jornal Diário De Marília, edição de 28/09/14

domingo, 21 de setembro de 2014

Ruas de Marília com nomes indígenas (parte II)

Se tem algo que faz bem a todo escritor, seja roteirista, cronista, autor ou articulista, é encontrar-se com seus leitores e ouvir um comentário sobre suas publicações. Foi assim que fiquei muito feliz ao encontrar o amigo José Carlos de Lima, o Preá, carteiro de profissão, há mais de 39 anos, no domingo passado, quando ele me disse que gostou do que leu na coluna Raízes, publicada no dia 14 de setembro.
Porém, como bom carteiro que é, emendou logo em seguida: "Mas você se esqueceu de citar outras ruas, como por exemplo as ruas Jaci, Peri, Caiapós". Olha só, coisa boa é ter amigos! Eu já sabia que de uma tacada só não conseguiria reunir todas as ruas na primeira publicação, e é certo que com mais esta ainda vão escapar outras tantas. Mas aí é que está o prazer do escritor, na descoberta, na pesquisa, na provocação e no interagir com os leitores.
E lá fui eu, buscar novas tribos na cidade. A Rua Jaci tem até lenda que conta sua história: Tupã criou o infinito cheio de beleza e perfeição. Povoou de seres luminosos o vasto céu e as alturas celestes, onde está seu reino. Criou, então, a formosa deusa Jaci, a Lua, para ser a Rainha da Noite e trazer suavidade e encanto para a vida dos homens. Mais tarde, ele mesmo sucumbe ao seu feitiço e a toma como esposa. Jaci era irmã de Iara, a deusa dos lagos serenos.  
Esta rua está localizada nas imediações da "torre da TV Tem", em Marília, onde também encontramos as ruas Peri (esteira de junco), Caiapós (Kaiapós - homens semelhantes aos macacos), Chavantes (Xavantes - gente verdadeira) e Caetés (mata verdadeira). A Lei que institui estas ruas é a de nº 342, de 26 de agosto de 1952, na gestão do prefeito Adorcino de Oliveira Lyrio. No mesmo documento, encontrei as ruas Iracema, Guarani e Ceci, porém, nos mapas atuais não foi possível localizá-las.
Um pouco mais fundo na pesquisa e encontramos a Lei nº 358, de 25 de outubro de 1952, com anotações de alterações. Penso que o fato tenha se dado pela passagem da rodovia do contorno (SP 333), ligando com a SP 294, em frente ao trevo da Unimar. 
Continuando os trabalhos, saindo da zona oeste, nosso destino agora é a zona leste, passando antes pela Rua Piratininga (peixe seco), lá no bairro Alto Cafezal, pertinho da Araraquara (toca de Arara) e da Taquaritinga (taquara branca e fina), seguimos rumo aos altos do aeroporto, mais precisamente do Seminário São Vicente de Paulo.
É por ali que vamos encontrar outras tribos, onde antes estava era a Vila Recreio. E lá fui eu, conferir de perto a região, por sinal, muito agradável, com casas que me fizeram voltar nas memórias da infância, onde os quintais ainda tem pés de fruta, que mesmo nesta secura de fazer dó mostram flores teimosas, como vi nos cajueiros e limoeiros e em alguns pés de mamão macho. Tem casa de tábua com chaminé de fogão a lenha, tem aquele romantismo dos bairros onde o aroma do feijão quente corre na brisa nas ruas, perto da hora da "Ave Maria".
Descobri e conheci o Sr. Antônio Pizzone e a esposa D. Neide, ele filho do Bepo Pizzone, italiano que tinha uma granja com o nome do bairro. Ele os irmãos trabalhavam na granja, ajudando o pai. A irmã Tereza mora ao lado, e no terreno da casa dela conferi as instalações do grande poço caipira que alimentava todo o sistema de bebedouro das aves e do abastecimento de uso doméstico das casas ao redor. Havia fartura de água.
As ruas Tapuias, Iporãs (rio bonito), Cacique (chefe da tribo), Tupinambás, Tamôios (avós), Tupis (Tupi-grande pai) e Tapájós foram regulamentadas pela Lei de 29 de agosto de 1949, doação de área ao então prefeito Miguel Argolo Ferrão, por Gumercindo Muniz Sampaio e Leonardo Pires da Luz. Na Tupinambás, tem construções de madeira, com galo cantando e caramanchão de Flor de Primavera, fazendo moldura pra casinha caiada. Minha nossa, quanta poesia esse bairro ainda tem.
Considerando as datas das leis que instituíram os nomes destas ruas, nota-se claramente a influência histórica da colonização que o homem "civilizado" impôs aos primeiros donos da terra. Batalhas sangrentas, massacres e extermínios de tribos. Uma luta de corpos e de crenças, com direito a espetar cabeças decepadas em estacas ao longo das trilhas das comitivas. E foi antes, bem antes, que esta história toda começou, como podemos conferir na letra da música "Peixinhos do Mar", de Milton Nascimento.

Gente que vem de Lisboa
Gente que vem pelo mar
Laço de fita amarela
Na ponta da vela
no meio do mar
Ei nós, que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos pólvora, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear
Quem me ensinou a nadar
Quem me ensinou a nadar
Foi, foi marinheiro
Foi os peixinhos do mar
Ei nós, que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos pólvora, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear.

E se a sua rua também tem nome indígena, pode mandar um e-mail pra gente contando alguma curiosidade, destacando construções ou fachadas, personagens que moram ou que já moraram nela e outras sugestões. Vai ser bem legal receber suas contribuições, e dias destes, mergulhando em busca de nossas raízes, podemos nos encontrar por aqui.


Ivan Evangelista Jr. é membro da Comissão de Registros Históricos de Marília
Publicado no Jornal Diário de Marília, edição de 21/09/2014

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ruas com nomes indígenas em Marília


Cada vez mais os recursos tecnológicos nos cativam. A cada dia, mais pessoas estão conectadas e introvertidas em seus mundos semivirtuais e, ao mesmo tempo, mais conectadas com uma imensidão de pessoas. Um contrassenso que vem merecendo estudos das mais variadas áreas, inclusive da psicologia e da sociologia, com o objetivo de tentar entender melhor este cidadão, plugado em tudo, porém, na maior parte do tempo, desconectado daquilo que está ao seu redor mais próximo. 
E não podemos negar que o mundo digital é muito atrativo. Com alguns programas instalados no celular, e com a devida permissão do usuário para que seja acompanhado em tempo real nos deslocamentos, ao final do dia, é possível obter um mapa das suas andanças. E, mais, o programa ainda agrega informações interessantes, sobre ruas e locais onde esteve, entregando, sem que você tenha solicitado, um pequeno filme da sua última viagem, dos locais visitados e da importância histórica e cultural destes locais.
Em recente viagem ao Rio de Janeiro, na companhia do Dr. Luiz Carlos de Macedo Soares, reitor do Univem, onde participamos do 3º Encontro de Reitores Santander Universia, me surpreendi quando o mister Google me presenteou com um filme contendo toda a trajetória, desde a partida, até o retorno para Marília, anexando as fotos que fiz com o meu celular durante o evento, e de pontos turísticos visitados. E ainda sugeriu e comentou outros pontos não visitados que estavam próximos de locais onde estivemos.
Para não correr o risco de perder as minhas fotos, mais o filme, o Google salva tudo lá na Nuvem, e eu posso buscar, sempre que desejar rever momentos ou mostrar aos amigos. Lembrando o seriado da dupla justiceira, na fala do menino prodígio Robin: "Santa Tecnologia, Batman!".
E não tenho dúvidas de que a nossa coluna Raízes, publicada regularmente aos domingos no Jornal Diário de Marília, já está devidamente indexada e catalogada na Nuvem, para também ser fonte de consulta do "grande sistema", permitindo que muitas histórias sejam contadas e enriquecidas com os registros e informações organizadas em forma de texto e ilustradas com imagens.
Quando alguém estiver navegando na Internet e pesquisando sobre a cultura indígena em Marília, vai descobrir que, no bairro Salgado Filho, existe um conjunto de ruas que homenageiam as tribos indígenas brasileiras. São elas: Coroados (cabelo cortado em forma de coroa), Carajás (Karajás - coisa ruim), Carijós (mestiço), Coroás (Koroás - veneno para matar peixes), Corumbis, Bororós (pátio da aldeia), Aimorés (botucudos), Tupã (deus da luz), Caiçara (vive da pesca) e Tabajara (senhor da aldeia) .
As ruas estão localizadas na região onde antes era a Fazenda Bonfim, nas costas do Marília Tênis Clube, chegando aos altos das proximidades com o Cemitério da Saudade. Apesar de sua fundação estar registrada na história em fevereiro de 1930, o Tênis, como é mais conhecido, passou por vários endereços antes de chegar à Avenida Rio Branco, fato consumado em maio de 1961.
Mencionamos o Tênis Clube porque foi a Sra. Olívia Cândida de Almeida a grande idealizadora do loteamento Salgado Filho, conforme Lei nº 429, de 30 de outubro de 1953, que autorizou a Prefeitura Municipal a receber a área por doação pura e simples. Na planta aprovada do loteamento, processo nº 1.352/53, além das vias já mencionadas, constam ainda a Rua Cel. José Braz, a Avenida Rio Branco e a Rua Guanás, e incorporando parte da área ao patrimônio do Tênis Clube.
Na pesquisa de campo, identifiquei uma quebra na sequência das paralelas. Entre as ruas Corumbís e a Bororós, antes, havia a Rua Pirajá (viveiro de peixes). Com a ajuda e pesquisa do companheiro na Comissão de Registros Históricos, Paulo Colombera, diretor da Câmara Municipal de Marília, resgatei que, por iniciativa do então prefeito Domingos Alcalde, pela Lei nº 3429, de junho de 1989, a Câmara Municipal aprovou a sua solicitação para a mudança de nome, passando a denominar-se Dr. Cesar de Almeida Pirajá, médico, soldado constitucionalista, falecido em agosto de 1949.
Percebi, durante as pesquisas para a produção do presente artigo, principalmente na tradução das palavras indígenas, uma variação de escrita que alterna as letras C e K, como por exemplo a palavra Karajás. Isto se deve ao fato de que os primeiros pesquisadores que produziram registros sobre as diferentes etnias foram antropólogos alemães. Com o passar do tempo, houve o "abrasileiramento" da ortografia, passando a escrever com a letra C no início. Dentre os documentos encontrados no vasto mundo digital, menciono: "A contribuição Alemã à Linguística e Antropologia dos índios do Brasil, especialmente da Amazônia" e o livro "O Viajante Hércules Florence; águas, guanás e guaranás", Days Peixoto Fonseca, editora Pontes, com relatos da expedição Langsdorff.
Uma coisa é certa: entrar neste mundo da pesquisa para produzir os textos dominicais tem me proporcionado alguns bons momentos de imersão na história, não somente da nossa cidade, mas da nossa cultura e do povo brasileiro. Ao escrever, registramos uma nova memória temporal, partilhamos conhecimentos com os leitores e internautas,  especialmente professores e alunos das nossas escolas, por meio de um olhar que consiga traduzir o contexto histórico e o atual.  Fica a dica sobre o livro mencionado acima "O Viajante", com relatos da expedição realizada entre os anos 1825 e 1829, para a produção de registros e relatórios sobre a paisagem brasileira e a sua gente.