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domingo, 20 de maio de 2012

CERCADOS DE BELEZAS NATURAIS, BAIRROS DA ZONA LESTE DE MARÍLIA QUEREM LAZER E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL


Por Célia Ribeiro

Moradores dos bairros da zona leste de Marília vivem o paradoxo de terem, ao alcance dos olhos, um cenário digno de cartão postal enquanto sofrem com a falta de opções de lazer . Os itambés, com suas cachoeiras e quedas d’água brotando da imensa área verde, são um espetáculo à parte que poucos têm aproveitado, como por exemplo, para a prática de esportes radicais. O que se vê, por outro lado, é o descaso com o acúmulo de lixo e entulho da construção civil que a Associação de Moradores do Jardim Aeroporto luta para combater.


Prática de parapente no Jardim Lavínia, captada por Ivan Evangelista
Formada por 15 bairros e condomínios, a entidade representativa de cerca de 10 mil habitantes, perdeu as contas das vezes que reivindicou melhorias para a região. Segundo a presidente, Waldivia Maria de Oliveira, uma das últimas mobilizações reuniu 631 assinaturas num abaixo-assinado entregue, no ano passado, ao ex-prefeito Mário Bulgareli.


Por incrível que pareça, carente de áreas públicas de lazer, a região possui um terreno com quase 10 mil metros quadrados, localizado no fim da Rua Shinji Kuroki, que reúne todas as condições para ser revitalizado. Os moradores sonham com a construção da praça que tem até nome: “Praça Pôr-do-sol”, cujo projeto foi elaborado pela arquiteta Angela Torres, gratuitamente.

Projeto da praça está só no papel
Na praça dos sonhos, estão previstos: ciclovia, academia ao ar livre, bancos para leitura, playground, jardim, mesas para xadrez e gamão, relógio solar além de teatro de arena. O ator principal, que aparece na maior parte do ano, promete um espetáculo sem cobrança de ingresso: o pôr-do-sol que se descortina no vale!
VIGILÂNCIA
Segundo a presidente da Associação de Moradores, a Prefeitura de Marília deveria investir naquelas áreas de preservação permanente, realizando limpeza periódica, bem como intensa fiscalização para coibir e, em caso de flagrante, punir com multas pesadas quem joga lixo ou descarrega caçambas de entulho da construção civil nos itambés que margeiam os bairros.
Sempre que ela recebe denúncia de moradores, Waldivia Maria recorre aos órgãos públicos na tentativa de resolver o problema. No entanto, é um trabalho de formiguinha que nem sempre é reconhecido, assinalou a líder comunitária. Sem sede própria (a entidade funciona na sua residência), a Associação também não tem renda, o que dificulta a atuação. Mesmo diante das dificuldades, a presidente está sempre batendo à porta da Câmara Municipal e da Prefeitura levando as reivindicações da população.
Itambés: grande potencial turístico inexplorado
(Foto: Ivan Evangelista)
Segundo a presidente, com poucos investimentos a administração municipal poderia fazer muito pela zona leste. Waldivia Maria citou o campo de futebol do Cecap Aeroporto: sem vestiários ou bebedouros de água, até os campeonatos esportivos promovidos anteriormente no local ficaram comprometidos: “Conseguimos que um projeto das melhorias fosse elaborado na Secretaria de Obras e levamos ao prefeito. Mas, por infeliz coincidência, recebemos a resposta negativa justamente no dia que o prefeito renunciou, cinco de março”.

Waldívia, presidene da Associação

Finalizando, a presidente da Associação do Jardim Aeroporto destacou que o Plano Diretor do Município previu “a criação do Parque dos Itambés, através de lei específica. Mas, nada foi feito. O que se vê é sujeira, entulho, lixo de construção que jogam dentro dos itambés. Não há nenhuma proteção ou recuperação ambiental”.
PREFEITURA

Através de nota da assessoria de Imprensa, a Prefeitura informou que adotou providências para solucionar os problemas citados pela líder comunitária: a Secretaria de Serviços Urbanos reuniu caçambeiros para orientação sobre descarte de entulho, promoveu a limpeza nas margens dos itambés, e realizou o plantio de 150 mudas de árvores no terreno destinado à praça.


Imagem de satélite mostra a vasta área verde e o terreno de
10.000 m2 destinado à Praça Pôr-do-Sol, no fim da Rua Shinji Kuroki
A nota acrescenta que está prevista a revisão do Plano Diretor e que, através de financiamentos habitacionais do governo federal, “promoverá a saída das famílias que moram em submoradias em áreas irregulares, como a dos itambés, para que estes espaços sejam mantidos com as características primitivas”.

Sem especificar qualquer previsão de construção da praça reinvindicada, a Prefeitura informa que “pela Lei Municipal 3600/1990 há a possibilidade de as praças municipais serem adotadas por Associações de Moradores, Comércio Local, e demais cidadãos na oportunidade de revitalização e ocupação do espaço público com suporte paisagístico e orientação técnica da Secretaria”.
A população pode denunciar o uso incorreto da área pelo telefone da SMA (Secretaria Municipal do Meio Ambiente) 3401-2000.
Publicado no Jornal Correio Mariliense, edição de 20.05.12 - Marília Sustentável  

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ela voltou


Garça na espreita de boa pesca

Siriema






















Notamos hoje a presença dela novamente, lá no mesmo lugar de costume, no cantinho da cobertura metálica como se fosse um ornamento. A coruja da cara branca vai passar m bom tempo por aqui, é sempre assim, mas nunca notamos se ela, ou quem sabe ele, teria uma companhia.
Aparece assim do nada, parece que migra para outra região por um período longo de tempo e depois volta para o mesmo cantinho. Sabemos que faz poucos dias que voltou porque no chão, no local onde caem as cácas da dona coruja, tem pouca sujeira. Eu vi duas pelotas, sinal de que ela já encontrou alguns ratinhos nos seus vôos e caçadas noturnas.
Não sabia bem o que eram aquelas bolas e fui pesquisar. Descobri que depois de comer pequenos ratinhos ou outros animais que tenham couro, no processo digestivo a carne e os ossos são absorvidos, já o couro é expelido em forma de pelotas.
A coruja da cara branca completa bem a fauna que habita a Fundação Eurípides – Univem – tem as Seriemas que se reproduzem bem por lá e andam livres pelo estacionamento, tem os Teiús, alguns enormes e atrevidos a ponto de ameaçar dar carrerão nos alunos, têm os Sabiás que sempre voltam aos ninhos antigos para novas chocadas, os Quatis que se alimentam das frutas na área dos fundos, as Capivaras que tomam banho na represa e ficam de olho miúdo pro sol, a Garça branca, pescadora de Tilápias, teve a Jibóia que virou notícia na televisão e nos jornais, os Quero-Quero que se sentem dono do pedaço e ao menor sinal de invasão do território voam pra cima do inimigo com suas asas pontudas e ainda uma quantidade infinita de pássaros, de cores e cantos variados.
Na verdade, o que atrai esta fauna rica e diversa é um conjunto de fatores que trabalham aliados em prol do meio ambiente: a decisão acertada de se reflorestar a área, isto lá por volta de 1998, quando a maior parte do terreno era colonião e pasto. Foram plantadas mais de 3.000 mudas, de plantas nativas e de outras espécies variadas que dão frutos o ano todo, goiabeiras, pitangas, mangas, acerola, jambolão, pinha, calabura, bananeiras e paineiras, entre outras; a preservação das nascentes e a canalização das águas de chuva, formando um pequeno lago que ganhou alevinos e hoje fornece alimento para um monte de bichos.
Ao descer o terreno a gente sente o vento no rosto que sopra do vale, se é dia de chuva, o cheiro do Pau D´Alho enche as narinas, misturado ao aroma doce da trepadeira vermelha que cobre o caramanchão. Lá no alto, um canto trinado avisa que a área tem dono. É o gavião que mora no alto do eucalipto seco, de onde tudo vê, saltando livre no espaço para dar voltas e rasantes com as asas abertas quase que paradas.
Natureza livre em harmonia, paz de espírito e sintonia com Deus.
Ivan Evangelista Jr       

domingo, 29 de abril de 2012

Entreposto do Mel “José Teixeira” é inaugurado com certificado do SIF



Matéria publicada no Jornal Correio Mariliense, ediçãode 29/04/2012



ACONTECEU ontem pela manhã na zona norte da cidade a inauguração no Entreposto do Mel “José Teixeira”. 29/04/2012
O espaço, que fica na rua Eugênio Coneglian, n.º 2.558 vai servir de entreposto para a certificação e garantia da qualidade do produto, de acordo com as normas exigidas pelo SIF- Serviço de Inspeção Federal. O evento aconteceu na presença de autoridades e representantes do Estado.
Com a inauguração da “Casa do Mel e do Apicultor”, o registro do SIF - Serviço de Inspeção Federal foi oficialmente adquirido e permitirá que o mel processado, envasado e expedido pelo órgão, seja comercializado e futuramente exportado para países da América do Sul.
De acordo com o coordenador regional do SIF, Waldir Brandão esse novo empreendimento dará uma valorização para a região. “O prédio tem todas as condições técnicas para a partir de hoje receber nosso certificado, e isso, quem ganha é a região que não contava com esse prédio”. Brandão destaca ainda que esse é o primeiro passo para a exportação do mel da região.
Para o zootecnista Valter Eugênio Saia, é muito gratificante essa conquista, segundo ele, os apicultores terão um local para se encontrar e discutir sobre o mel da região. “Vamos poder nos reunir mais e trazer tecnologia para os produtores, o prédio está todo equipado com aparelhos de última geração”. Saia ainda fala que esse acontecimento é uma conquista não só para os apicultores da cidade e região, como também para a população que terá um mel com qualidade produzido em nossa região.
Alcindo Alves é o presidente FAMESP- Federação de Apicultura e Meliponicultura do Estado de São Paulo e fala sobre a inauguração do entreposto. “Marília foi a pioneira a fortalecer a federação, sou muito grato a todos desta cidade que fizeram do nosso sonho realidade”. Alves destacou que Marília é a 6º cidade em todo o Estado a ter um complexo com esta estrutura.
Para o produtor João Rodrigues esse entreposto será bem vindo para a nossa classe, pois vamos passar a existir para a sociedade. “Agente só existe quando tem um registro, agora com o entreposto e com o SIF vamos passar a existir” Rodrigues que é produtor a 20 anos produz cerca de 2 mil quilos de mel por ano e garante que o mel é um dos melhores da região.
O secretário municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Paulo Roberto Oliveira Júnior, destacou a importância desta unidade para a apicultura da cidade e região. “Temos 180 associados e a tendência natural é que este número se eleve cada vez mais a partir de agora, com o entreposto. Nosso mel (mil flores), é muito nutritivo”, frisou.
O presidente da Amar - Associação de Apicultores de Marília e Região, Antonio Fernando Scalco, concorda e acrescenta que o fato de o Brasil ser um país com diversidade floral, ajuda no aumento da produção.“A genética brasileira nesta área de apicultura é muito eficaz, mas necessitamos melhorar a competividade. Desta forma, seremos um grande exportador”, comentou Scalco.
Junto com a Casa do Mel irá funcionar a sede da Associação de Apicultores que está localizada em uma área de 12 mil metros quadrados. No local, foi implantado um laboratório de análises do produto, escritório para o SIF, área de recepção do mel, sala de descristalização, áreas para envasamento, rotulagem, expedição e armazenamento, bem como de desinfecção. O nome do entreposto foi uma homenagem ao Sr. José Teixeira que foi um grande pioneiro de mel na região de Marília.
 No nível estadual, Marília ocupa hoje o quarto lugar na produção, com aproximadamente 180 toneladas/ano de mel, porém o potencial do sindicato é atingir 500 toneladas nos próximos três anos. Com a inauguração da Casa do Mel, a expectativa da Prefeitura e Amar é conseguir tirar da informalidade fiscal e sanitária cerca de 300 famílias, dando segurança alimentar à população da região bem como fornecer maior lucratividade às famílias produtoras.

sábado, 28 de abril de 2012

Casa do Mel é realidade


Olha so que notícia legal.
Foi inauguada hoje a Casa do Mel de Marília, pela Associação dos Apicultores de Marilia e Região.
Na pratica isto significa maior qualidade na produção e comecialização do mel aqui produzido, por sinal, estamos em terceiro lugar na produção do estado. Nosso mel agora tem SIF (Inspeção Federal), tem laboratório de avaliação das qualidades físico químicas, tem envazamento ...com tecnologia, temos orientação e acompanhamento de todo o processo produtivo e temos as condições necessárias para começar a exportar nos próximos anos.
A Casa do Mel é modelo para outros estados e motivo de orgulho para todos nós. O design do rotulo foi desenvolvido por alunos do curso de Design Gráfico do Univem.
Foi lá que também pudemos experimentar o saboroso mel produzido por colmeias próximas as plantaçõesde mandioca, arte do Massa, apicultor experiente e que tem várias colmeias em nossa região.
Mel é saúde, mel é sustentabilidade consciente.
Parabéns a todos que se empenharam nesta empreitada.
Rotulo tem informações nutricionais e origem do produto

 
Vista parcial da entrada principal

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Nos jardins das amizades


Deomar e a Crista de Galo, no jardim das amizades
Eu estava na tradicional feira do domingo, entre as tangerinas, também conhecidas como bergamotas, entre os caquis e as laranjas limas da vida, quando o telefone celular tocou. Do outro lado, uma voz amiga me saudou, fez algumas brincadeiras e, mesmo assim, não foi o suficiente para identificar quem estava na outra ponta da linha, se é que ainda podemos usar esta expressão. Entrosamos num bom bate papo e logo identifiquei o amigo.
E, já que a conversa estava bem descontraída, eu o convidei para saborear umas frutas. Levar para casa é bom, mas é difícil dizer se tem melancia mais gostosa do que aquela que a gente compra na barraca, já fatiada e come ali mesmo, lambuzando o beiço, escorrendo o caldo pelo queixo, molhando até o pescoço. Mais uns passos adiante e vem o vendedor de abacaxi, segurando a fruta pelo talo, já descascada, gritando em alto e bom som que é mais doce do que mel, fruta de Minas Gerais, “coisa boa, freguesia, pode provar que você nunca viu nada igual”.
O meu interlocutor aceita de bom grado a brincadeira e me pede uma fatia de melancia embrulhada para presente. Era o Deomar Brigantini, gente fina como ele só, morador do bairro Cecap Aeroporto. Foi meu colega de trabalho por muitos anos, secretário da diretoria da Fundação Eurípides, daqueles profissionais que quase não se encontra hoje em dia. Organização e presteza são sua marca registrada, isso sem contar que sempre tinha, e ainda tem, uma boa anedota ou um causo dos bons para contar.
Ele me fez o convite para ir até a sua casa fotografar a Crista de Galo que estava no jardim. Já deu para perceber que o Deomar é daquele tempo em que casa boa de morar tem que ter jardim bonito na frente, com pé de rosas, de diferentes cores, com dálias enormes, daquele vermelho encarnado, com pé de arnica, mato besta que ele só, mas que sempre ajuda a tirar a dor quando de molho no álcool, e ainda uns tomateiros perdidos entre as folhagens, de onde ele diz que já colheu mais de três quilos e fez boas saladas.
Fazia um bom tempo que a gente não se encontrava e achei o convite uma boa oportunidade de colocar a conversa em dia e apertar a sua mão. Surpreendi-me assim que cheguei ao endereço; impressão das melhores não poderia ter. Tudo arrumadinho, chão varrido, paredes bem pintadas, detalhes de harmonia aqui e ali, e o jardim, que logo percebi ser o cartão de visita da casa. A Crista de Galo, enorme, estava lá, soberana entre as ramagens, e mereceu boas fotos.
Depois, aceitei outro convite e fui até os fundos do terreno conhecer o quintal. Terreno bem cuidado, com pé de laranja lima da Pérsia, de acerola, de boldo, de banana nanica, de mamão macho, que dá flores em pêndulos e que são ótimas para se ferver com água, mais um pouco de mel ou açúcar e pronto, não há xarope para tosse melhor do que este preparado. Senti-me em casa, tamanha a simpatia e acolhida, dele e de toda a família, que já estava nos preparativos do almoço.
No chão de terra, uma rolinha Fogo-Pago, solitária, ciscava entre os gravetos e andava de um lado para outro, despreocupada. Mal sabia ela que, em tempos no passado, este amigo visitante andava de calças curtas e não se separava do estilingue feito com tripa de mico e do bornal com bolinhas de gude. Haja pecado pra se pagar.
Lá na cozinha, assim que o alho caiu no azeite quente, o aroma invadiu o ar e denunciou que era hora da visita acabar. Hora da fome.
Nas despedidas, ganhei um saco de acerolas para fazer suco, ganhei lima e a recomendação para fazer uma boa caipirinha com a fruta, ganhei também a oportunidade de rever um amigo querido e sua família, ganhei o domingo.
Tudo porque a Crista de Galo cresceu mais do que o comum.
Ivan Evangelista Jr
É membro a Comissão de Registros Históricos de Marília

quarta-feira, 14 de março de 2012

Armadilha para atrair enxames em caixa de papelão

Enxame capturado na caixa de papelão 

Preparando  a caixa para atrair novo enxame

Funciona assim:
Pegue uma caixa de papelão de tamanho médio, faça uma armação de madeira que se encaixa nas medidas da caixa, faça alguns caixilhos (5 ou 6) para servir de estrutura para os futuros favos.
Propolise a caixa ou esfregue erva-cidreira e abra um orifício por onde as abelhas possam entrar. Pronto, esta feita a armadilha.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Um dedo de prosa, um café e várias histórias



Fachada do Educandário Bento de Abreu onde
 raio destruiu ornamento na parte mais alta do prédio


Na esquina da Rio Branco com a Sampaio Vidal, sobre o telhado da antiga residência dos Montolar, armação de antena de rádio dos anos 60.

Rádio valvulado e ferramentas de trabalho diário
No bailado do rodamoinho, o prenúncio da mudança de tempo
A prosa na varanda seguia morna, no mesmo ritmo da água esquentando sobre a boca do fogão para mais tarde o café. O assunto, hora passava pela fase da lua boa para plantar milho e mandioca, hora sobre o capim na roça, que nesta época do ano, de chuva pouca e sol abundante, cresce viçoso e solta a sementeira, sem dó do lavrador já atarefado.
Um vento besta começou a soprar no terreiro de secar o café e as folhas secas entraram no bailado do rodamoinho que, geralmente, acompanha a brisa que anuncia uma mudança de tempo. Da ponta das árvores mais próximas do quintal, os Anus brancos são surpreendidos também pela corrente traiçoeira e saltam dos galhos num voo todo desengonçado, coisa de rabo muito comprido virando pra cima do corpo, apressados para encontrar um local onde possam se abrigar da chuva.
A carijó, toda cuidadosa com seus pintinhos, cacareja num tom parecido com a telegrafia, e eles entendem, vão saindo debaixo das saias do café, das moitas e montes de folha seca, onde ciscam os bichinhos preferidos, e correm pra mais perto da mãe. A cadela de cor quase cinza, de tetas sempre gordas porque tem uma cria atrás da outra, que descansava no cimento quentinho, de barriga para cima e olhos bem amiudados, sai da pasmaceira típica de cachorro vira lata, que mais late do que morde, e corre pra debaixo da mesa e das pernas do dono.
Todos estes sinais se juntam a um relâmpago rápido, seguido de forte estrondo que arrebenta no céu, e as nuvens vão virando umas sobre as outras, em cores escuras e disformes. Vem chuva forte por aí... "corre recolher uns paus de lenha", diz alguém lá na cozinha.
Outro relâmpago e um raio cheio de pontas cruza o céu rumo ao horizonte, segue mais um trovão e outro. Dona Joana, a dona da casa, já procura com os olhos ligeiros um canto para se esconder. É pânico de temporal, tem medo, muito medo mesmo, e isso vem desde criança quando perdeu a mãe, vitimada por uma descarga elétrica.
Ela nos conta que estavam todos na casa e o tempo virou pra chuva. Moravam na roça, lá no estado da Bahia, um lugar de poucas casas e muito chão batido. A faísca foi certeira, descarregou na ponta cumeeira e correu pelos paus do telhado, até descer pelo batente da porta, onde a mãe se recostava, sentada nos degraus da pequena escada. Ali ficou, foi fatal.
Casou-se com o Paulino e foi morar na região de Avencas, onde também naquela época ficava o bairro Catequese, ou Catiqueis, como era chamado pelos caboclos. Casa de taipa, chão batido e parede feita de casca de coqueiro do mato, completando a trama com barro vermelho alisado com as próprias mãos, depois uma caiação pra deixar mais bonita e afastar o bicho barbeiro.
Sem eletricidade, o rádio era tocado com aquelas pilhas enormes, muitas delas feitas pelo Sr. Aurélio, um curioso da eletrônica que, mais tarde, veio a ser funcionário da CPFL de Marília. As condições de recepção eram precárias e o conjunto exigia: além do rádio ABC Canarinho, A Voz De Ouro, o fio terra, geralmente feito de arame grosso, enrolado várias voltas em um lima de amolar enxada, velha e enferrujada, depois enfiado num buraco do lado de fora da parede e perto do local onde o rádio ia ser instalado. Um outro fio subia parede acima e atravessava o telhado, até alcançar a ponta de um outro arame, ou fio desencapado, estendido entre dois bambus, geralmente no cumprimento de 10 a 20 metros. Esta era a antena de rádio típica de sítio, também considerada a melhor arapuca para atrair raios e faíscas.
Nuvem preta dava sinal no horizonte e dona Joana corria cobrir o espelho da penteadeira com a toalha da mesa ou a colcha da cama, porque aprendeu desde criança que espelho também atrai raios. O mesmo se fazia com as tesouras de costura, que estavam sempre ali, ao alcance das mãos, mas nestas ocasiões ganhavam o lugar mais fundo das gavetas. Faca não ficava sobre a mesa da cozinha nem pensar. E quem tivesse lidando com metal, enxada, facão ou enxadão, que tratasse de largar rapidinho.
Voltando à cena da varanda, dona Joana serviu o café, que passou, com o coração apertado de medo, pelo coador de pano. Um gole esquenta a goela e seu Generoso entra na prosa contando que raio gosta é mesmo de Perobeira alta. “E tem mais viu”, dizia ele, “naquele tempo, eu vi o raio bater na ponta da Peróba e abrir a árvore no meio, até embaixo na raiz. Depois da chuva, a gente correu lá para ver se achava a ponta do raio no chão”.
- “Como assim Generoso?”
“Pois é. O povo daquele tempo dizia que quando o raio descarregava na árvore, podia procurar a ponta lá embaixo que virava uma pedra preta e comprida, parecida com uma cunha grande, isto sem falar do cheiro forte de enxofre que ficava no derredor.”
E fora esta, eu e você, amigo leitor, já ouvimos outras tantas boas histórias, de gente que morou em sítio ou fazenda e confirma tudo que aqui está contado, “tar e quar” o Guinete Grassi, leitor assíduo da coluna. Teve gente que já viu amigo cavar buraco feito Tatu Peba pra ver se encontrava a tal da pedra.
De minha parte, brinquei com eles: “nunca vi rastro de cobra nem couro de lobisomem, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.”
Povo bom de se conviver, prosa boa de se ter e café bom de se beber.
Ivan Evangelista Jr
Membro da Comissão de Registros Históricos de Marília e Chefe de Gabinete do Univem
Publicado no JornalDiário de Marília, edição de 11/03/12