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A camionete com placa preta de originalidade |
Durante muito tempo a esquina da Rua
Bandeirantes com a Rua Feijó foi vitrine de exposição para uma das camionetes
mais bonitas produzidas pela Ford no pós-guerra. A F-150 brilhava na cor verde
oliva e guarda sob o capô um potente motor de 8 cilindros. Vez ou outra era
comum passar pelas imediações e ver o seu orgulhoso proprietário dando um banho
para tirar a poeira. Um senhor de estatura mediana, magro, sempre bem vestido,
sustentando sobre o nariz um óculo de armação fina que guardava um olhar dócil
e acolhedor.
Simpático e acolhedor ele me recebeu um
dia e me convidou para entrar e tomar um café. Foi ali que tivemos um bom
diálogo que me levou para o mundo fantástico da aviação e nesta oportunidade
ele disse que já estava com dificuldade para renovar o brevê devido a idade já
avançada. “Vai ser difícil, voar é a minha vida” disse-me ele com um sorriso de
tristeza.
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Aeronave está no Rio de Janeiro com novo proprietário |
O senhor Bombini era conhecido como “Ave
Noturna” pela razão de ser um dos pilotos pioneiros na aviação comercial
noturna. Ele trabalhou para Usina Paredão, na cidade de Oriente, nos áureos
tempos da produção de açúcar. Neste período de vida os patrões adquiriram uma
aeronave Bonanza – F35, fabricação de 1955, cauda em V, equipamento que ele
mesmo foi buscar nos Estados Unidos. Quando se aposentou fez questão de ficar
com o avião que sugestivamente tem o prefixo PT-AVN, ou seja, as mesmas
iniciais do seu apelido de Ave Noturna. Tamanha são a beleza e o acabamento
desta aeronave que ganhou o apelido de Cadillac
voador.
Os Bombinis têm tradição na aviação. No
Museu da TAM “Asas de um Sonho”, na cidade de São Carlos, tem um belo painel
com foto histórica de quatro pilotos marilienses: Rubens Bombini, Renato Zanni,
Nelo Ferrioli e Ari Pinheiro. Este grupo
fez muita história na aviação comercial brasileira e tudo começou aqui em
Marília.
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Renato Zanni e Orlando Bombini (foto: Ivan Evangelista Jr) |
Orlando
Bombini(o Ave Noturna) é pai do Orlando Bombini Jr que voou por 40 anos para a
TAM e se aposentou no dia 2 de janeiro de 2018;
Rubens Bombini que trabalhou na COMTAX e encerrou a carreira
oprfissionaL na TAM; Sérgio Bombini é irmão do Rubens Bombini, também foi
piloto e atuou na aviação agrícola. Faleceu em 1971 em acidente na cidade de
Taciba-SP. Na família Bombini são 11 pilotos ao todo o que mostra a paixão pela
aviação.
Tenho o áudio emocionante da conversa
entre o piloto e a torre de comando do aeroporto de Guarulhos que balizou o
pouso do vôo TAM 8085 procedente de Londres. Em meio as orientaçõespara a
aterrissagem o controlador o cumprimenta e diz: “Comandante Bombini Jr? –
Sou eu. Prossiga, Bombini na escuta. Bom dia comandante, este é seu último dia
voando antes da aposentadoria e quis o destino que ele acontecesse no primeiro
dia de um novo ano. Novo ano que se inicia fechando com perfeição uma vida inteira
dedicada na aviação. Nós da torre de controle aqui do aeroporto de Guarulhos
rendemos a nossa homenagem e desejamos a você que tenha toda felicidade e
prosperidade nesta nova etapa de vida. Um grande abraço e sinceros parabéns de
todos nós aqui. – Muito obrigado senhores, muito obrigado mesmo e se eu
embargar a voz é de emoção, pela gratidão que eu sinto agora, por ter convivido
todos estes quarenta anos com a competência de vocês, nos trazendo ao solo com
toda segurança, nos retornos à nossa base e a nós todos os aviadores.
Especialmente palavras vindas de vocês, do órgão de tamanha envergadura que é o
controle São Paulo, a torre, controle de solo,e eu gostaria de agradecer
imensamente, do fundo do meu coração, desejando também um feliz ano novo e muita
saúde aos seus familiares. Obrigado por estes praticamente quarenta anos,
conferidos com profissionalismo e competência de vocês. Obrigado. – É isso
comandante, bom dia. Parabéns mais uma vez, aqui o taxi tem outra surpresinha
para o senhor ainda. Ok obrigado.”
Neste momento entra a voz de outro comandante de aeronavee pergunta: “o
companheiro, a garotada ta contigo aí ou não? Ao que ele responde: Todos os
Bombinis.”
Na chegada ao aeroporto o avião foi batizado com a tradicional cortina
de água e saudado com sirenes.Neste vôo de despedida o comandante estava
acompanhado do seu filho João Carlos Bombini Filho, um dos co-pilotos e, pleno
de orgulho, testemunhou o espetáculo derradeiro que corou uma carreira
brilhante. A saga dos Bombinis continua. Voar é preciso.
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Bombini Jr, de camisa xadrez (foto: Ivan Evangelista Jr) |
Esta semana o comandante Bombini Jr veio
visitar Marília e participou da tradicional reunião do grupo Velhas Águias que
congrega pilotos e comandantes da história da aviação mariliense.
Por Ivan
Evangelista Jr, membro da Comissão de Registros Históricos de Marília e membro
convidado do grupo Velhas Águias de Marília.
*Publicado no Jornal da Manhã, edição de 14/01/2018, Caderno 2
*Publicado no Jornal da Manhã, edição de 14/01/2018, Caderno 2