sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A casa que guarda a história das lambretas e das motos

Era na Rua Catanduva que residia o seu Manuel Português e também o Sensei (professor de judô) Hajime Kobari, nome muito respeitado no esporte brasileiro. O filho do seu Manuel, do qual não me recordo o nome, era conhecido como “português”, e o sobrinho do Kobari San, Shinji Nishimoto, é conhecido como “chupeta”.
Encontro na Sampaio Vidal
Estes dois jovens tinham lambretas e passavam boa parte do tempo montando e desmontando os motores para “envenenar” as máquinas. Lembro-me que lavavam as peças dentro das tampas laterais dos motores. Colocadas sobre o calçamento com a parte interior virada para cima, serviam como caçamba para deixar as peças de molho na gasolina. Naquele tempo eles eram conhecidos como “os capetas” em razão de andarem sempre com os motores em alta rotação e com os escapamentos encurtados para fazer mais barulho.
Eles participavam de competições e corridas, formavam grupos e viajavam pelas cidades vizinhas, em busca de troféus, ou simplesmente para exibir as máquinas incrementadas. O visual era composto do blusão, o boné de couro, com tapa orelhas, os óculos de proteção e calça rancheira Lee.
Cordeiro e a turma de motoqueiros
Podemos dizer que eles eram os sucessores de uma outra turma, bem mais antiga, que já circulava pelas ruas da cidade, donde participavam o Cordeiro, pai da Vera, do Dr. Marcos e do Nenê Cordeiro e o seu Orlando, da bicicletaria da rua Bahia. Quando acionados os motores destas motocicletas, a combustão gerava um grande estouro, assustando as pessoas e os animais que puxavam as carroças e charretes. Por isso mesmo, já naquela época, os pilotos de motos eram chamados de “infernais”.
E boa parte desta história sobre motocicletas e lambretas, do mundo todo, está guardada aqui em Marília, na Rua Francisco de Oliveira Santos, nº 72, no bairro Bandeirantes. Visitei a residência do Luiz Antônio Campos Peres, colecionador de veículos automotores, e como ele mesmo diz, não tem sangue nas veias, e sim, óleo de motor. Para se ter uma ideia da sua dedicação e paixão, a coleção de máquinas ocupa, além da garagem, todo o espaço externo disponível na residência, restando apenas um pequeno quintal gramado onde mantém algumas frutíferas.
Entre motos e lambretas, numa contagem rápida durante as fotos e registros, arrisco dizer que passam de 70 máquinas de duas rodas, mais 5 automóveis antigos, todos em processo de restauração que ele mesmo executa, e às vezes, buscando serviços de outros profissionais. Foi mecânico por 8 anos na oficina do Alemão, para encontrar as peças que necessita procura nos ferros velhos e desmanches, ou vasculha pela internet.
Luiz e a coleção na garagem
Luiz é colecionador e, por natureza, um irremediável contador de histórias. Imagine as peripécias para conseguir juntar este conjunto todo? É técnico em química e aposentado no ramo de representante de laboratório, viajou muito pelos estados de São Paulo e do Paraná. Conta com emoção que cortou muito barro vermelho com o fusquinha, tempo em que visitava médicos e farmácias para divulgar a linha de produtos.
Foi nestas viagens que descobriu parte destas máquinas, geralmente, esquecidas em cantos e quintais nunca imaginados. Era ouvir a notícia de que em tal lugar poderia haver uma moto antiga encostada e começar a traçar os planos para na próxima oportunidade iniciar mais uma caça ao tesouro.
Na frente da residência ele tem um exemplar de um Ford Truck 1938, raridade que chama a atenção de quem passa pelo bairro. O veículo também tem história. Pertenceu ao Sr. João Toyota, foi mecânico em Marília, estava guardado em um sítio. Entre idas e vindas, propostas e recusas, finalmente a transação aconteceu.
Em meio as máquinas de metal, um destaque: a réplica da primeira motocicleta com motor de combustão interna, inventada pelo alemão Gottlieb Daimler. Ajudado por Wilhelm Maybach, no ano de 1885, instalou um motor a gasolina de um cilindro em modelo que lembra uma espécie de bicicleta de madeira. O alemão contou com o auxílio do filho Paul Daimler, um garoto de 16 anos, que o acompanhava nos testes já que as explosões com uso da gasolina eram fato comum.
Replica da primeira motocicleta
Instigado pela curiosidade Luiz conseguiu cópias do projeto da moto de Daimler. Auxiliado pelo artesão e carpinteiro Sr. Barbosa, e com a sorte de encontrar um motor antigo em condições de recuperação ele montou a réplica. Diz que a moto vai ganhar lugar de honra no museu, hoje, improvisado na residência.
Outra peça que tem orgulho e alegria de possuir é a moto DKW Bloch, ano 1926, origem alemã, sendo que esta exigiu muitos contatos e paciência para conseguir as peças. Ela divide espaço na garagem com o automóvel modelo Chevrolet Wood,ano 1950, feito com armação de madeira, outro Chevrolet Bel Air, americano, ano 1954, uma Harley Davidson, ano 1948, a moto inglesa, marca Ariel NH350, uma BSA 250 e uma  Golden Flash, considerada a moto mais rápida do mundo nos anos de 1950.

Luiz alimenta o desejo de um dia poder mostrar toda a coleção em local mais adequado para receber visitantes, será uma exposição de sonhos e de histórias que o acompanham há muitos anos e que para nossa sorte está guardada aqui em Marília.

Publicado no Jornal Diário de Marília em 11/01/2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

Ruas com temas natalinos e bíblicos

Um conjunto de ruas localizadas em dois bairros bem tranquilos da cidade nos remete ao Natal e toda a sua magia. Convidando os leitores a fazer este passeio, e para facilitar a orientação urbana, tomem como referência a Casa de Betânia, das irmãs do Sagrado Coração de Jesus.  
Seguindo pela rua Tenente Antônio João, lateral da Casa de Betânia, sentido norte, chegamos à Vila Altaneira e listamos as seguintes ruas: Belém, Nazaré, Jerusalém,  Betânia, Jericó, Cananéia, Emaús, Calvário e Galileia.
Para completar, temos a Rua Cristo Rei, começando na rotatória da Vicente Ferreira, e lá no final, avistamos o Memorial das Apóstolas do Sagrado Coração.
Nazaré foi a cidade do nascimento da Virgem Maria e também o local onde Jesus passou boa parte de sua infância e por isso se tornou um centro de peregrinação cristã. É uma rua curtinha, porém muito agradável e com residências bem cuidadas. Do último quarteirão, avistamos, lá do outro lado da cidade, o Santuário São Judas Tadeu.   
Depois seguimos para Rua Belém, local onde nasceu Jesus de Nazaré, cidade habitada por uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo, e cantada em versos de várias músicas natalinas. No Brasil, a tradução mais comum para Belém é “Casa do Pão”, sendo utilizada para identificar centros assistenciais que servem refeições e acolhem pessoas carentes. Na rua Belém está a escola Emef
“Célio Corradi”, e bem ao lado da mesma encontramos a fonte de água potável “Padre Guy Fortier”.
Galiléia, atual Palestina, é uma região que concentra todas estas cidades bíblicas. Esta rua também me chamou bastante a atenção pela tranquilidade e concentração de residências com fachadas e jardins bem cuidados. Notei ainda um costume comum de tempos mais antigos, que é manter quintais com muitas frutíferas e muitos vasos e plantas nas áreas das casas. Em uma das residências as placas “vende-se frangos e ovos caipiras” e “vende-se gansos”, instalada no portão, indica que é possível encontrar produtos de origem rural bem mais próximo do que imaginamos.
Paralela à Rua Galiléia está a Rua Emaús. Segundo a tradução, significa riacho quente, foi uma cidade antiga localizada próxima de Jerusalém, e segundo as escrituras, foi o local onde Jesus apareceu diante de dois de seus discípulos após a sua ressureição. Já a Rua Cananéia é uma referência aos povos de origem de Canaã, antiga denominação da região correspondente à área do atual Estado de Israel.
A Rua Jericó é muito utilizada pelos marilienses, recebe todo o fluxo de veículos das Ruas José Bonifácio e Salgado Filho. Da esquina com esta última, por não ter prédios residenciais que tampam a visão, temos um bom enquadramento para fotos do centro da cidade, onde se destaca no cenário a cúpula da Matriz de São Bento.  Acima dela, paralela, está  Rua do Calvário.
Em latim, Calvária, em hebraico,Golgota, “lugar da caveira”, ficava perto de Jerusalem local onde o Cristo foi crucificado. Nas pesquisas realizadas encontrei uma passagem que merece registro: “O imperador bizantino Constantino, contruiu a igreja do Santo Sepulcro sobre o que se pensava ser o sepulcro de Jesus, entre 326 e 335, perto do lugar do Calvário. De acordo com a tradição cristã, o Sepulcro de Jesus e a verdadeira cruz, foram descobertos descobertos pela imperatriz Helena de Constantinopla, mãe de Constantino, em 325.
Vista a partir da Rua Jericó
A igreja está hoje dentro das muralhas da cidade antiga de Jerusalém, após a expansão feita por Herodes Agripa, em 41-44, mas o Santo Sepulcro estava provavelmente além das muralhas, na época dos eventos relacionados com a vida de Cristo.

Ao fazer o circuito das ruas aqui mencionadas não prenda os olhares apenas nas linhas longitudinais e fachadas. Com altos e baixos, a região toda favorece boa visão dos bairros que se avizinham e o descobrimento de informações que quase não são registradas no cotidiano. Um exemplo prático é quantidade de áreas verdes com produção de hortaliças que abastecem parte do mercado consumidor local.
Aproveitando as águas que brotam das minas, comuns nas baixadas, como já mencionei em artigos anteriores, são fontes de vida, e de trabalho para muitos cidadãos que ainda preferem o contato com a vida da natureza como forma de ganhar o pão de cada dia.
Pelas lentes da companheira Nikon, quase que inseparável no dia-a-dia, captei imagens que me remeteram à Marília dos anos 70 e 80, onde as hortas eram mais comuns. Ainda não se falava em “orgânicos”, mas a gente sabia a origem dos produtos, dos adubos e dos métodos de controle de pragas.
Nas andanças para a captura dos registros e das informações para a produção do artigo alguns detalhes que despertaram mais a minha atenção: a tranquilidade das pessoas que caminham pelas ruas no sol da manhã, na Rua Galiléia, prolongamento, uma jovem paineira que esparrama a sua vitalidade e anuncia florada para o próximo ano, e não raro, pessoas com enxadas nas mãos, capinando a calçada e a guia, trocando palavras com os vizinhos e fazendo planos de reformar a moradia para o próximo ano.

É Natal, é a vida que renasce dentro de todos nós. Feliz  2015.   
Publicado no Jornal Diário de Marília, em 04/01/2015

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ruas dos mirantes, dos aviões e das garças


Radioescutas marilienses no aeroporto
O período de festas natalinas e a chegada do ano novo são também tempo de desacelerar a vida. Mesmo estando no interior paulista, vivemos sob rotinas e atividades que nos fazem constantemente manter um olho no relógio e outro na agenda. Dá a impressão de que nos faltam horas no dia.

Nestes últimos tempos, uma nova agravante contribui para este sentimento. Marília já tem os grandes congestionamentos, os gargalos no trânsito que ocorrem nos horários de picos. Na Vicente Ferreira, acesso para a Tiradentes e para a zona leste, no final da Castro Alves, na Avenida República, sentido bairro-centro, Rua Nove de Julho, Rua São Luiz, entre outras.



Foi numa conversa com amigos sobre o crescimento da cidade e este sentimento de perda de qualidade de vida que me fizeram a pergunta: Você tem alguma sugestão de locais onde seja possível passar alguns bons momentos, fazer umas fotos, admirar o pôr do sol e curtir mais esta cidade? Disse que sim e, apesar de Marília não ser uma cidade plana, é possível fazer bons circuitos de lazer utilizando bicicletas.  

Via Expressa
Foi então que apresentei uma rota de caminhos e pontos de onde se tem boas vistas, da cidade e dos vales. São os “Mirantes”, que apesar de não formalizados turisticamente, são locais muito agradáveis e de fácil acesso. Confiram algumas opções: começo pelo Mirante da Via Expressa, com vista para o imenso vale que se abre à frente, logo após a passagem sobre o viaduto que limita a Av. Sampaio Vidal com a via Expressa. Evite parar na curva, siga adiante mais uns 40 metros, e dali se tem a melhor vista do Vale dos Dinossauros.

Outro local fantástico é no final da Avenida Brigadeiro Eduardo Gomes. Já na estrada de terra, no ponto onde hoje está a central de controle de distribuição da Gás Brasiliano, com duas possibilidades: seguir em frente e apreciar toda a paisagem da Serra de Dirceu, ou virar à direita, tendo acesso a uma bela estrada que nos leva ao conjunto de chácaras e pequenos sítios. Bons ventos, muito verde, visão privilegiada das encostas.

No Jardim Lavínia
Para quem gosta de apreciar os esportes radicais, lá no Jardim Lavínia, nos finais de semana, é o ponto de encontro da turma que pratica o voo livre com parapente, também conhecido como “a rampa do Lavínia”. O local é propriedade privada, mas o dono da terra permite que a moçada entre e desça com os veículos levando os equipamentos. Se for visitar, leve água potável, protetor solar e umas frutas, pois é certo que, se os ventos estiverem favoráveis, vai permanecer por ali umas boas horas.

Outro ponto de encontro de amigos é o terreno ao lado da pista do aeroporto local. Mais precisamente na Rua Antonio Grassi, com acesso pela Av. Brigadeiro Eduardo Gomes. Assim que passar o bosque municipal, entre à direita e siga até o final. Aos domingos, com tempo bom, a partir das 15 horas, a turma dos radioescutas se junta, e leva toda uma parafernália tecnológica para monitorar o movimento de aeronaves no território brasileiro.

Além dos rádios receptores, que permitem acompanhar os diálogos entre os pilotos com os aeroportos de destino, contam também com radares em tempo real e câmeras fotográficas em punho. O desafio é localizar e registrar fotos das aeronaves que passam sobre a rota aérea de Marília. Essa turma é descontraída, receptiva e sempre uma boa oportunidade de conhecer mais sobre estas máquinas voadoras que tanto nos encantam.

Serra de Avencas
Não poderia deixar de constar na lista a Serra de Avencas, este sim um mirante natural com vistas para todo o Vale da “Flor Roxa”, nome da principal fazenda da nossa zona rural e, na minha opinião, um dos locais mais belos do região. Tem área boa de estacionamento de veículos e dá para subir ao topo da serra, sem a necessidade de equipamentos especiais.  Aproveite a vista, o vento que sopra com mais intensidade, e procure registrar a variedade de cantos de pássaros silvestres.

Uma outra dica é a Rua Eugênia Freire Nunes, mais para a zona sul da cidade. Para facilitar a localização geográfica, esta r
ua fica exatamente do outro lado do "Vale do Barbosa", de onde se avistam os condomínios Parque Serra Dourada e Vale do Canaã. Foi a galera do voo livre que me convidou certo dia para registrar alguns saltos e, desde então, descobri mais uma tela natural da cidade. No fundo do vale, se avista a represa da Unimar e, com um pouco de sorte, a tarde poderá nos presentear com algumas nuvens esparsas no céu, transpassadas por raios solares.
E, para completar o circuito, visite o “Ninhal das Garças”. Fica logo atrás do Hospital Universitário, na Rua Emílio Moreti, acesso por asfalto. A partir das 17 horas, uma quantidade incrível de garças brancas toma conta da copa de uma enorme árvore. A paisagem vai se transformando, chegam aos bandos e, antes do pouso, fazem um sobrevoo de reconhecimento pela área.

Todas as dicas acima não exigem maiores esforços físicos, apenas a disposição de desligar-se do que nos consome. Compartilhe! 

Publicado no Jornal Diário de Marília, em 21/12/14 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Arcoverde, a rua do Correio


O Cardeal Arcoverde
Já comentei que algumas ruas acabam perdendo a identidade e passam a ser mais conhecidas pela referência popular, conquistada ao longo dos anos, o que podemos dizer que foi um apelido que colou. Temos vários exemplos, entre eles: a "rua do bosque", referência à Brigadeiro Gomes, a "rua da Prefeitura", que é a rua Bahia, "a rua da Antarctica", que mesmo com o passar dos anos ainda continua sendo a primeira identidade da Av. Castro Alves, e  a "rua do MAC", referência à Av. Vicente Ferreira.
É um recurso de memória fácil de ser utilizado e que acionamos de imediato quando alguém nos pede uma informação sobre determinado serviço público ou estabelecimento. Fazemos da referência principal o centro da atenção, e transportamos mentalmente o nosso interlocutor até aquele ponto. A partir dele, traçamos o trajeto de acesso ao ponto desejado. Creio que isso é coisa bem brasileira e facilita a comunicação.
Faço esta introdução porque eu mesmo tenho uma grande dificuldade de guardar nomes de ruas, porém, as referências geográficas visuais são para mim um recurso de primeira mão. Quando mais jovem, me aventurei em viagem por conta própria. Acabava de receber o primeiro salário e fazia parte dos projetos uma visita ao amigo Júlio, mariliense que havia se mudado para São Paulo.
E lá fui eu. O destino final era o bairro São João Clímaco, Rua Pelegrino Varane, residência da  família Esteves; o pai, Francisco, trabalhou por anos na Antarctica; dona Olinda, a mãe, foi costureira das melhores, na Rua Coelho Neto, onde hoje está a indústria Marcom. Já na capital me indicaram ir até o Parque Dom Pedro, donde deveria me informar sobre a linha de ônibus que me levaria ao endereço. Andei tudo a pé, era muita novidade, e um misto de euforia com zonzeira me tomou conta. Então, decidi que o famoso prédio do Banespa seria o meu norte, o meu centro geográfico.
Antes de seguir ao Parque Dom Pedro, eu queria conhecer o Sujinho, a boca do lixo, o Filé do Moraes, a Rua Santa Ifigênia, a Av. Ipiranga, esquina com a São João, a Bela Cintra... Até então, tinha visto tudo aquilo nos jornais e nas revistas. Era um sonho que se realizava. Cortava galerias, atravessava avenidas, observava as pessoas naquele ritmo doido, e fui ao Mappin, ahhhh ! o Mappin, eu estava lá e nem acreditava...
Saí do Mappin e busquei com os olhos a torre do Banespa, daí, já sabia qual direção tomar até chegar ao Parque Dom Pedro. Para encurtar a história, chegando ao terminal do parque, passa na minha frente um ônibus prata com as inscrições na lateral: "São João Clímaco" e eu pulei dentro, mais rápido que gato fugido de pega de cachorro de rua. Por sorte, depois de passar pela Estrada das Lágrimas, descobri que o acaso havia conspirado a meu favor e o tal ônibus me levaria até bem próximo do local desejado. Foi o cobrador quem me contou que São João Clímaco era o nome da empresa de transporte público, concessionária de várias linhas na capital. Ufa!
É assim que a Rua Arcoverde, em Marília, é conhecida também como a "Rua do Correio". Caiu no consciente coletivo popular a partir da instalação da sede própria da empresa de Correios e Telégrafos, na esquina com a Sampaio Vidal. Antes, funcionava na Rua 4 de Abril, esquina com a Campos Sales. No livro do historiador Paulo Lara, encontramos boas narrativas sobre o tema.
Destaco entre elas o fato dos Correios, em certo período da história, competirem com a Companhia Paulista de Estrada de Ferro, visto que em todas as estações havia um posto de telégrafo. Na mesma obra, lê-se: "... Mas o serviço telegráfico da hoje Fepasa não mais existe e o dos Correios e Telégrafos se aperfeiçoou bastante,inclusive com o ‘Telegrama Fonado’ há alguns anos introduzido com reais vantagens."  (o livro é de janeiro de 1991)
Antiga sede da biblioteca municipal
O terreno dos Correios era propriedade dos irmãos Casadei, foi desapropriado pelo prefeito João Neves Camargo e passou por boa reforma neste ano de 2014, adaptando-se às normas de acessibilidade e com visual e instalações mais modernas.
O mesmo autor nos relata em outra publicação: "Primeiramente chamou-se ‘1º de Março’. Talvez fosse a data do início do loteamento. Depois se chamou ‘Cel. Siqueira Reis’, o primeiro coletor federal de Marília. Vivo este então, mudaram o nome para Arcoverde em homenagem ao 1º Cardeal brasileiro e da América Latina, nascido em Pesqueiro, Pernambuco, em 1850, e falecido em 1930. Seu nome completo era Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti."
biografia
Wilza Matos, bibliotecária da Câmara Municipal e também membro da Comissão de Registros Históricos, faz importante anotação de que na mesma rua residiu, por anos, o pioneiro Sr. Kyomassa Shibuya , um dos fundadores da empresa Sasazaki, grande admirador e cultivador de orquídeas e de bons amigos.
As placas de identificação ao longo da via variam na forma da escrita: Arco Verde e Arcoverde, sendo esta última a forma correta.
 
Publicado no Jornal Diário de Marília, em 14/12/2014
 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Rua Dr. Pérsio de Carvalho, médico da família


Esta é mais uma daquelas histórias que a gente "emprenha" de orelha. Conhece o termo?

É um ditado popular caipira, muito utilizado para dizer que alguém ouviu um causo e passou para frente, daí dizer: "sobre este assunto, ele, na certa, emprenhou de orelha e passou adiante". Emprenhar, ficar prenha, diz-se do animal que vai dar cria; por exemplo, a vaca está prenha. Resumindo, ouvi e estou passando pra frente do jeito que me foi passado.

Mas a fonte é boa... veio de contador de história que prezo muito, gente que pisou nesta terra no começo da cidade, que vinha lá da Avenca (distrito de Avencas), no lombo de égua mansa, para fazer compras na rua Cel. Galdino e levar pra mãe. Tudo empacotado com papel de embrulho e amarrado com barbante, acomodado depois nos sacos alvejados, próprios para transportar alimentos, ajeitados sobre a cela do animal, que seguia a passos lentos até a morada.

Junto da lista escrita, a mãe dava o dinheiro, meio que na conta certa do valor, escrevendo logo abaixo: se faltar, depois eu mando o resto; anota, por favor. Para alegrar o garoto, hoje nosso contador de histórias, o dono da venda ajeitava um saquinho com doces e balas que ele ia degustando pelo caminho.


Dr. Persio em foto de formatura da medicina 
Naquele tempo, tinha a Santa Casa, a Gota de Leite, a escola de enfermagem, mas também já existia o médico de família, profissional que visitava regularmente as fazendas e atendia com datas pré-agendadas em locais diferentes. Entre os nomes mencionados pelo nosso contador de histórias está o do Doutor Pérsio de Carvalho, patrono de rua no bairro Vila Nova.

Geralmente, os atendimentos eram feitos na sede das fazendas e depois de consultar e medicar o pessoal das colônias, o doutor saía para a redondeza, em lombo de burro ou de Jippe, dependendo das condições do caminho.

Nosso contador de causos diz assim: "na nossa casa sempre tinha uma tira de linguiça e panceta salgada pendurada sobre o fogão de lenha, sempre tinha um porco na lata; era botar a frigideira na chapa do fogão a lenha e, em dois minutos, a travessa farta estava sobre a mesa. Dr. Pérsio chegava, e passava primeiro pela cozinha, donde já se instrumentava de uma faca e corria tirar uma lasca das peças defumadas, comidas com fatias de pão caseiro".

Dona Isabel, anfitriã da casa, era avisada com antecedência sobre a vinda do médico e se incumbia de avisar a vizinhança. Data marcada, notícia vinha de cavaleiro, ou de caminhão da compra, que fazia a rota campo e cidade. O melhor frango do terreiro já era separado. "Prende, e nos próximos dias só milho e água, pra depurá o sangue, Dr. Pérsio vem aí, faço questão que coma bem em nossa casa", dizia Dona Isabel ao filho.

E assim acontecia. O médico chegava e visitava os doentes, as mulheres que estavam esperando criança, as paridas e seus rebentos, os novos e velhos. Entre causos e contos, choros e risos, a fila andava e as receitas iam sendo anotadas e entregues aos pacientes.Tudo sem muita frescura, na sala de chão batido mesmo. Se tinha comprimidos nos bolsos do terno de linho branco, ou na maletinha, já distribuía ali mesmo e dava as recomendações sobre os períodos de resguardo.

Coisa comum naquela época era o tal de furunco, ou furúnculo, na pronúncia correta. Difícil encontrar menino de sítio que não teve pereba ou bicho de pé. Tinha que esperar o tal de furunco ficar maduro. Das duas, uma: espremia pra tirar o carnegão, ou com um pouco de conversa fiada, aquele tio mais querido ia entretendo na conversa, erguia o short e assim que a bunda ficava à mostra e o furunco aparecia... zap, navalha afiada cortava cirurgicamente a pele superficial, fazendo aquilo tudo explodir pra fora, igual pipoca que estoura na panela.

Dr. Pérsio dava uma olhada no serviço feito pelo tio, pra ver se não tinha infecção, e depois recomendava umas pílulas pra evitar que arruinasse. Não raro, ouvia do consultado que a mistura de fumo com urina havia sido aplicada pra garantir. Isto mesmo, fumo de corda com urina já foi remédio contra infecção, e dos bons segundo a crença popular.

Na Cãmara Municipal, título de cidadão Mariliense
Dr. Pérsio de Carvalho, filho de Breno de Carvalho e Antonia Oliveira, nasceu em 7 de setembro do ano 1909, Laranjal-MG. Chegou em Marília no ano de 1.933, trabalhou na Santa Casa e Gota de Leite, foi professor da disciplina de Moléstias Contagiosas na escola de enfermagem. Foi presidente da Associação Paulista de Medicina, membro ativo da comunidade dos Vicentinos e nas campanhas de combate ao câncer e lepra. Sócio fundador do Yara Clube, do Marília Tênis Clube e do Aeroclube de Marília, faleceu em Marília, em 5 de março de 1.986.    

Ivan Evangelista Jr. é membro da Comissão de Registros Históricos de Marília.

Publicado no Jornal Diário de Marília, edição de 07/12/14